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Pensar o bem

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Pensar é gerar na acepção plena do termo. Quando um indivíduo pretende fazer alguma coisa, primeiro ele pensa sobre a coisa, seus componentes, sua forma, a relação entre os componentes e só depois age. Do ponto de vista mental, o que acontece é que a mesma coisa. A cada instante do pensamento materializa-se na psicosfera do indivíduo aquela parte pensada, que evolui à medida que o pensamento prossegue e termina quando a mente finaliza o seu trabalho. O pensamento produz, então, dois tipos de produtos: um mental, que fica armazenado no ambiente mental do indivíduo que o produziu, e outro material, que pode ou não vir a ser construído. Essa dupla materialização funciona tanto para o bem, quanto para o mal. O bem é tudo aquilo que traz satisfação para o indivíduo sem trazer insatisfação para o outro, enquanto o mal é o contrário, a geração da insatisfação para o autor e para quem receba o impacto de sua criação. Este ensaio tem como objetivo mostrar porque pensar o bem é um dos pilares da Nova Educação.

Já faz alguns séculos que os indivíduos que frequentam a escola como instituição se perguntam o porquê terem que aprender determinadas coisas. A pergunta é frequente, mas a resposta continua evasiva. Na verdade, os atuais professores parecem esquecer essa inquietação de seus tempos de estudantes quando praticam sua missão. Tudo na vida tem um aspecto teleológico, uma finalidade. E, como tal, cada assunto ou tema trabalhado tem que ter uma finalidade também. A finalidade de tudo na vida é aprender a ser feliz, a construir a própria felicidade e contribuir com a felicidade dos outros. Como consequência, o simples fato de ajudar os outros a serem felizes se transforma em motivo de felicidade.

Se os estudantes, professores e profissionais da educação souberem que estão ali para aprenderem a produzir suas felicidades e dos outros, as coisas mudam de figura. E passarão a apresentar esquemas lógicos impensáveis para todos. A expressão y = 2x + 1, por exemplo, pode ser vista como y = felicidade, que depende de todo bem que pudermos fazer a nós mesmos (x) de forma sorridente (1) ou então como y = fome, que é causada pela má distribuição da comida (x) produzida por falta de transporte (1). Esse exemplo permitirá que todos, professores, alunos e profissionais da educação, criem infinitas formas de compreensão e aplicação daquela singela lição (y = ax + b). E a constância do exercício do pensar a mesma estrutura levará, inexoravelmente, à constatação de que ali não está apenas representada a realidade dos fatos e fenômenos do mundo e das vidas, mas também a sinalização da solução para todos os problemas ali representados.

Aprendemos na escola a pensar estruturadamente, logicamente. Isso quer dizer que ali vamos aprimorar nossa capacidade cognitiva, que é responsabilidade da fisiologia cerebral, elétrica, química e eletroquímica, mental, que é a geração da produção cognitiva no espaço mental, psicosférico, e atitudinal, que é a aquisição de habilidades para materializar o pensado em matéria física. Essa estrutura triádica tem como ponto final o bem, que é a satisfação do indivíduo que pensa e dos indivíduos que recebem o produto desse pensamento. Se o outro que auferir o produto do nosso pensamento for um inimigo, declarado ou oculto, melhor ainda. É com a entrega constante do bem que as inimizades e os sentimentos de ódio se amainam e se dissolvem.

Pensar o bem não é negar que a maldade e o mal existem. E tampouco significa que não existam pessoas que nos odeiam e que são capazes de odiar. Pensar o bem é a admissão de que todo ser humano tem pelo menos um pingo de bondade no coração e que, portanto, é capaz de fazer o bem pelo menos para ele mesmo. Não existe, portanto, uma divisão do mundo entre pessoas maldosas (opressoras) e bondosas, da mesma forma que não existem um grupo de oprimidos (que sofrem opressão) em contraposição a opressores. Esta é uma imagem fantasiosa. Todos nós somos opressores e oprimidos ao mesmo tempo. Oprimimos a nós mesmos quando nos dizemos incapazes de fazer alguma coisa ou quando nos fazemos contentar com nossa imperfeição, da mesma forma que oprimimos aos outros. Toda forma de divisão antagônica das pessoas é uma maneira maldosa de pensar. E, como todo pensamento, de produção mental do mal.

Quanto mais indivíduos estiverem aptos a pensar o bem, mais leveza terá a psicosfera que eles habitam. Essa sensação pode ser atestada quando se entra em ambientes onde os indivíduos que ali habitam ou trabalham estão efetivamente dedicados a pensar o bem, diferentemente da atmosfera carregada, tensa, pesada, dos ambientes em que o mal predomina. É mais leve o ambiente de uma creche do que a de um presídio. As pessoas se sentem melhor cuidando de sua família do que fugindo de um bando que lhes quer matar. Essa mesma sensação pode ser percebida entre sociedades ditas desenvolvidas (e o desenvolvimento é sempre um produto do bem), em que quase não há assassinatos, corrupção, assaltos, agressões, estupros e as atrasadas, onde essas ocorrências, além de serem frequentes, são exageradamente elevadas.

Pensar o bem não é ser crítico. A crítica é uma forma disfarçada de fazer o mal. Juridicamente, a crítica calúnia, difamação ou injúria. Quando for as três coisas ao mesmo tempo, é considerado crime perfeito. Criticar é não pensar. O pensamento é a reconstrução lógica da realidade, uma tentativa de demonstrar como a realidade funciona. A crítica, por seu turno, é a prática de destacar uma suposta anormalidade da realidade sem qualquer preocupação em reconstruir o todo, a lógica da coisa na integralidade. 

Sozinha, cada parte do todo é ilógica, sem sentido. Uma árvore sozinha não tem sentido sem que se tenha em mente a lógica da floresta. Pensar o bem é ver a floresta para valorizar cada árvore. Todas as árvores são importantes, preciosas. Da mesma forma, todos os seres humanos, seres vivos e inanimados são importantes. Todos fazem parte do mundo e das vidas. Pensar o bem é fundamental porque reconhece a fundamentalidade de tudo o que existe, tudo o que ocorre. É pensando o bem que vamos ver que o mal, na verdade, é apenas uma ilusão, decorrente da forma distorcida de ver e entender as coisas, modelo que pretende se perpetuar. O mal é sempre um bem, como mostraremos adiante.


Daniel Silva é PhD, professor, pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM) e escreve  todas às sextas-feiras no ac24horas.

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