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A importância dos sonhos

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Um dos atributos da Nova Educação é a de trabalhar a potencialidade de todos os indivíduos na materialização dos seus sonhos. Todos são, potencialmente, capazes de se transformar naquilo que manifestam já na primeira infância. Se essa potência é trabalhada em cada etapa de sua formação e consolidação como seres humanos (e não como profissionais, como os sistemas educacionais obsoletos ainda teimam em focar), a probabilidade de os sonhos se realizarem aumenta substancialmente. Ainda que não se realizem, sabem os profissionais dessa nova etapa da história da humanidade, os sonhos continuam na mente e na alma dos indivíduos, agora transformados (melhor seria dizer multiplicados) em diversos outros. Mas essa consciência e compreensão só podem fazer parte do cotidiano do profissional da educação, se conhecerem com adequação o funcionamento do cérebro. Neste sentido, este ensaio tem como objetivo mostrar que o cérebro é o principal aliado dos indivíduos na concretização de seus sonhos.

É muito comum que se ouça de cada criança afirmativas do tipo “quero ser professora” ou “quero ser motorista”. Querer ser significa, em primeiro lugar, que não se é, de maneira que o querer manifesta um desejo de ser. Em segundo lugar, quem faz esse tipo de afirmativa tem consciência, ainda que imprecisa, de um protótipo, ou escopo, de algo em que se quer transformar. Apresenta a mesma precisão semântico-pragmática de quem diz “quero te transformar em um sapo”, onde o outro “não é um sapo”, é um indivíduo, mas há o desejo de transformá-lo naquilo que ele não é, ou seja, deseja-se que o outro “seja um sapo”. A neurociência mostra que esse é um processo consciente: sabe-se o que é um sapo, que a pessoa não é um sapo, que se deseja que a pessoa seja um sapo.

Querer ser professora, motorista ou qualquer protótipo que seja deve ser a constatação de que o indivíduo tem um projeto ou, no mínimo, um desejo, um intento. Quando esse desejo passa a ser o foco da sua vida, a dar sentido à sua existência, essa intenção não pode mais ser chamada desejo, mas sonho. Os sonhos orientam e conduzem as ações humanas em direção à concretização de um ideal de vida, ainda que na maioria das vezes não percebamos que o ideal é inalcançável, se não, não seria ideal, mas real. Os motivos por que um indivíduo quer ser o que não é parece que não se perdem ao longo da vida, como se fossem diferentes aspectos de uma missão. É essa missão, que nada mais é do que o que chamamos sonho, que a educação atual castra e que a Nova Educação reconhece e trabalha a sua concretização.

Quando alguém quer se transformar naquilo que ainda não é (e que é obrigação da educação e da escola ajudar nessa metamorfose), há um motivo muito forte para isso. Algumas crianças (e adultos) conseguem exprimi-lo com precisão. “Quero ser professora para ajudar as pessoas a serem boas” pode significar “as pessoas são más e precisam de alguém para se tornarem boas. Eu quero ser esse alguém, estou disposta a isso”, da mesma forma que dizer “quero ser motorista para ajudar os aleijados a ir de um lugar para outro” exprime o motivo de se querer se aquilo que ainda não se é.

Disso resulta que há duas formas de se reconhecer o sonho de qualquer indivíduo. A primeira é conhecendo aquilo que ele quer ser, que é o mesmo que dizer “naquilo que ele quer se transformar”, enquanto a segunda é sabendo qual é o grande feito que ele quer realizar na vida, que pode vir tanto na forma de “ajudar as pessoas”, bem genérica, quanto na especificidade de “curar as pessoas doentes”, em campo de atuação, ou “curar o câncer das pessoas”, em especificidade de foco. Evidentemente que o sonho em si não é relevante. O que importa é que quando o indivíduo tem um escopo, a escola e a educação têm que levar a sério o sonho porque é ele que vai estruturar até a sua personalidade. E quando os recursos educacionais se voltam para potencializar a capacidade humana os sonhos pouco a pouco vão ganhando em consistência de realização.

À medida que o indivíduo vai se desenvolvendo e sua capacidade de realização vai se transformando de potência em ato, mais e mais motivado tende a ser para adquirir conhecimentos e habilidades. E isso tende a reforçar a fortaleza do sonho originário, quase todos voltados para o bem, de que aprender é ser capaz de fazer algo significativo para o outro. A neurociência mostra que quase todos os indivíduos já nascem com a centelha do bem, e que o mal é aprendido. Ainda que o mal possa predominar em alguns indivíduos, as centelhas do bem não se apagam. Projetos e estratégias educacionais bem sucedidas são aqueles que conseguem resgatar a missão originária, o sonho inicial. E é por isso que é tão importante conhecê-los nos casos dos indivíduos que os apresentarem.

É para o sonho que os campos do conhecimento servirão de meios, não mais como fins, como na educação atual. Para que serve saber que f(x) = 2x+1 indica uma relação diretamente proporcional entre f(x) e x? Por que devo aprender isso? O profissional da Nova Educação não apenas conhece com profundidade o esquema lógico dessa notação, como também faz uso dele e é capaz de vinculá-lo ao projeto de vida (sonho) de seus alunos. Vincular não significa ensinar, dar aula, mas elaborar estratégias para que os próprios indivíduos aprendam a lógica das coisas e criem diferentes formas de utilizá-la para a concretização de seus sonhos. Ninguém é capaz de aprender tudo o que uma matriz curricular se propõe a ensinar. Na Nova Educação, é a própria necessidade de aprender que leva à busca do item a ser aprendido para que se acople ao sonho.

Se se perguntar às pessoas consideradas bem sucedidas e às que se consideram felizes com o que fazem e com suas vidas, perceberemos que realizam, de alguma forma, seus sonhos originários. O sonho originário lhes dá prazer porque dá sentido à vida. E sentido significa, quase sempre, a conexão daquilo que se faz com um ideal. Quanto mais próximo estiver essa conexão, maior a probabilidade de as pessoas se considerarem felizes. Materialmente significa que o corpo faz aquilo que a mente orienta; espiritualmente quer dizer que a missão que o indivíduo se propôs está sendo realizada. Quanto mais o indivíduo se distancia de sua missão, maior a possibilidade de sofrer as doenças da alma, como a depressão, que campeia nos dias de hoje.


 

Daniel Nascimento-e-Silva é PhD, professor, pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM) e escreve todas às sextas-feiras no ac24horas. 

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