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Bolsonaro é alvo do desamor ao Brasil

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Antes de atingir o pico (ponto máximo da curva de mortes diárias), várias vezes adiado e ainda alvo de estudos e modelagens cujas estimativas vão de milhares a milhões dependendo do freguês, nas últimas semanas a COVID-19 teve que dividir as atenções dos brasileiros com um verdadeiro pandemônio político, instaurado pela demissão de Henrique Mandetta do Ministério da Saúde e agravado pela demissão do Sergio Moro do Ministério da Justiça, sem contar com o stress na área econômica provocado pelo Plano Pró-Brasil elaborado e anunciado fora do controle do Ministro da Economia, Paulo Guedes.

O presidente Jair Bolsonaro, democraticamente eleito por 57 milhões de brasileiros, vê diminuir seu capital político. A cada evento desses, ele fica mais fragilizado, tendo que, para sobreviver, recorrer à radicalização bolsonarista de uma parcela da população que lhe é fiel e a velhos expedientes de cooptação parlamentar. Figurativamente, como um animal sob ataque e em desvantagem, o presidente vale-se da força e dos golpes ainda restantes, sejam quais forem, na tentativa de, ultrapassada a crise, se libertar e sobreviver. Em uma situação assim, chutes, mordidas e caneladas são perfeitamente compreensíveis.

A última investida ele vem sofrendo do Supremo Tribunal Federal – STF, a partir das declarações de Sergio Moro que não mediu as consequências do ato, restringindo-se ao que chamou de zelo pela própria biografia. Moro, ainda que tenha saído politicamente viável para futuras disputas conforme assinalam algumas pesquisas e análises especializadas, poderá soçobrar no emaranhado que caracteriza o processo político brasileiro. Fato é que, de modo improvável em outro contexto, o ministro Alexandre de Moraes resolveu, neste caso, suspender ato legitimo de nomeação do diretor geral da polícia federal, por alegada quebra de impessoalidade entre outras, o que fez pasmar boa parte dos brasileiros. Como assim? O presidente pode nomear e empossar o ministro da justiça e não pode nomear cargo hierarquicamente inferior?

Pergunta-se, com razão, de que modo foram alçados ao STF a maioria, senão a totalidade de seus membros. Alguns deles, aliás, diferentemente do delegado Alexandre Ramagem, sequer cumpriam integralmente os requisitos exigidos pelo cargo, a rigor, nem o próprio ministro Alexandre de Moraes pode dizer-se escolhido e nomeado por Michel Temer de modo impessoal. Pensemos: Que tribunal no Brasil resistiria impunemente a um exame de impessoalidade nas nomeações de todos os seus membros e cargos comissionados?

Ao integrar nestes termos o movimento de desgaste do presidente, a Corte Suprema renuncia ao papel moderador que lhe incumbe e veste a camiseta de ativista político. O cenário é, no mínimo, nebuloso. Bolsonaro está cercado pela mídia, STF, governadores e parlamento em meio a uma crise econômica brutal e um imenso cortejo fúnebre provocado pela COVID-19. Nenhum presidente da república na história brasileira teve contra si tantos elementos e tal circunstância, ao ponto de, ligeira e irresponsavelmente, julgando-o moribundo, verdadeiras hienas políticas lhe prepararem o golpe fatal, o impeachment, como se a nação brasileira estivesse à mercê de seus jogos de poder. Outros, hipócritas e dissimulados, o acossam ofertando o cálice da renúncia, numa espécie de ameaça “renda-se ou será violentado”.

Reconheçamos, cada passo, palavra ou ato do presidente Bolsonaro é monitorado politicamente, juridicamente e pela imprensa sob filtros jamais aplicados a qualquer outro, praticamente impedindo-o de presidir, função para a qual foi eleito pela maioria do povo brasileiro. Colocaram-no no corner e o golpeiam incessantemente. Se fizermos um exercício de memória e expusermos Temer-Porto de Santos, Dilma-Petrolão, Lula-Mensalão-Petrolão e FHC-Compra de Mandato ao massacre que sofre Bolsonaro, veremos que nenhum deles resistiria. Não por acaso, toda essa gente está hoje, às claras ou na penumbra, impulsionando a derrocada do governo, como se humilhar e depor o presidente resolvesse a gravíssima crise que vivemos. Não resolve, não é prudente, não é digno.

Sim, há problemas. O presidente reage muito mal às críticas, é impulsivo e inábil com as palavras, possui um viés mandonista, criou em seu entorno o mesmo tipo de influência rombuda e eventualmente erra como seria normal, contudo, pelo que se sabe essas características não se traduziram concretamente em ofensa à constituição federal. Trata-se, portanto, de uma marcha contra um presidente eleito em confronto com o establishment.

A situação nos leva a refletir se há nisso tudo algum compromisso com o Brasil. Em que outro país no mundo, se pode encontrar tanta falta de amor e tal desapego ao povo? Em todos os lugares, do ocidente ao oriente, observamos a união entre contrários para o enfrentamento da crise sanitária. Partidos e líderes, até mesmo religiosos, baixam a guarda, oferecem uma trégua, adiam disputas, para que sejam preservadas as condições mínimas de enfrentamento dessa doença infernal. No Brasil, os derrotados nas últimas eleições apenas buscam uma oportunidade para a revanche, para o alcance do poder.

Neste momento, o Brasil precisa desesperadamente que haja moderação na política, que seus agentes guardem provisoriamente seus projetos pessoais e partidários, e que permitam ao presidente a governabilidade necessária à superação da crise avassaladora que enfrentamos. Decididamente, a conflagração atual da luta política tendo como objetivo o impedimento do presidente – imagine-se os efeitos de uma troca de governo, não é patriótica, atenta contra a democracia e dificulta a construção do país que queremos para nossos filhos.


 

 

Valterlucio Bessa Campelo escreve às sextas-feiras no ac24horas

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