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Estratégia do aprendizado: servir

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Por muito tempo se imaginou a educação como algo exclusivo do espírito, como se fosse a alimentação de uma dimensão interior humana. O conhecimento abriria essas portas e permitiria uma vida contemplativa, ainda que imaginária, de um mundo ideal, bastante diferente da realidade que todos tinham que enfrentar. Aprendiam-se coisas, entendiam-se esquemas lógicos para o encantamento individual ante o mundo, sempre enigmático, sempre desafiador. Era importante saber falar, porque eram mundos da oralidade, assim como seria interessante tocar um instrumento musical ou guerrear nos exércitos, mas nenhuma preocupação havia com a ação, com a melhoria da vida, com o viver cada vez melhor. De lá para cá, estruturalmente, pouco mudou. O máximo que conseguimos foi educar para o trabalho, que é uma forma amenizadora de adestrar as pessoas. A nova educação tem compromisso com a transformação do mundo para que se instaurem aqui os fundamentos de um mundo capaz de proporcionar a felicidade. E isso só se faz com uma estratégia de aprendizado com outro foco. Este ensaio tem como objetivo mostrar que servir é a estratégia da nova educação.

O conhecimento do funcionamento do cérebro abre novas perspectivas sobre a aprendizagem humana. O aprendizado só se efetiva se for ancorado nos princípios emocionais nobres, como a alegria de aprender e a satisfação de comprovar a validade dos entendimentos aprendidos. E alegria e satisfação se somam para gerar a felicidade, ainda que passageira, quando o indivíduo descobre, com as habilidades adquiridas com o manuseio do entendimento aprendido, que é capaz de agir sobre o mundo transformando-o, melhorando-o, cocriando-o. Essa grande descoberta, quando edificada sobre as bases do bem, dá ao aprendiz a convicção de que seu cérebro lhe permite uma conexão constante com a alma do mundo. O indivíduo não se vê pertencente apenas a uma família ou grupos localizados, passa a adquirir uma consciência cósmica.

E a beleza que vê nos céus, como os gregos e seus antepassados também viram um dia, não é mais meramente contemplativa. Torna-se plausível, um dia, de ser vivenciada, se começar a produzir agora os entendimentos que serão transformados em habilidades e produtos passíveis de levar às estrelas. E a mesma beleza que vê nos céus, quando lança o olhar pleno de emoções nobres para o seu redor, passa a ser possível de ser construída em todos os lugares que habite. Sabe que seus arredores fazem parte da grande maravilha cósmica que gostaria de conhecer e viver. O indivíduo de mentalidade cósmica, que vê maravilhas no céu, é capaz de transformar os lugares que habita em lugares maravilhosos. A beleza do viver orienta e conduz seu aprendizado e suas ações.

E não há mundo maravilhoso sem que as criaturas que o habite sejam felizes. A felicidade como grande projeto individual e cósmico é que deve ser trabalhada todos os dias, a cada hora, a cada segundo, não apenas nas instituições de ensino, mas em todas as organizações. As famílias são instituições do aprendizado em pequenos grupos íntimos, onde seus membros aprendem para usar o aprendizado para melhorar as vidas uns dos outros; as organizações comunitárias são instituições onde pessoas diferentes do mesmo espaço aprendem a fazer coisas que sirvam a todos indistintamente; nas organizações laborais os indivíduos produzem coisas para servir a muita gente que desconhecem; nas escolas e universidades aprendem e desenvolvem novas formas de fazer coisas que sirvam a mais e mais gente. Todos têm a consciência de que a felicidade só pode ser concretizada se todos tiverem seus esforços direcionados servir ao outro. É servindo que se é feliz. É isso que a nova educação tem feito todos os dias onde já começou a ser trabalhada.

Servir é uma força tão poderosa e transformadora que, mesmo sendo praticada de forma egoísta, gera resultados impressionantes. O que diferencia as empresas mais bem sucedidas das que fracassam? O valor que conseguem agregar a seus produtos e serviços é a resposta exata. Quem você escolheria para fazer uma cirurgia de coração, o médico displicente que chega completamente alcoolizado para a operação ou o profissional diligente e amoroso, que dominando as técnicas e instrumentos mais modernos, lhe retira qualquer aflição que pode lhe incomodar nessas horas difíceis? De quem você prefere comprar frutas, do comerciante grosseiro e mal encarado ou de quem lhe atende com cortesia e amorosidade, atributos que também se encontram nos produtos que lhe oferece?

Ainda que inconscientemente, todas as sociedades, todas as associações de pessoas estão descobrindo que é o bem, o servir com amorosidade, que lhes atrai. E, por isso, procuram pessoas e organizações que pratiquem a bondade. É essa forma de ver o mundo e viver a vida que a nova educação apresenta, condições fundamentais para a edificação de uma nova sociedade, baseada no servir ao outro, que é, efetivamente, o que amar significa. Não se ama alguém falando palavras doces e praticando agressões físicas, tampouco fazendo carinho em uma hora e no outro dilacerando a alma e o corpo do próximo. Ama quem faz. E ama mais ainda que o faz em anonimato. É por isso que o indivíduo que aprendeu com a nova educação faz muitas coisas e quase ninguém percebe. O que interessa a ele não é o reconhecimento da autoria, mas a felicidade estampada nos rostos de quem se beneficiou de sua ação.

Muito se tem falado em educação integral ou formação humana integral. Infelizmente, a integralidade de que falam cobre apenas uma pequena parte do todo do indivíduo. Não se busca a felicidade, a alegria, as emoções nobres que alimentam a alma. Não há como se encontrar o homem integral olhando-se para dentro de si. O indivíduo se reconhece na sua divindade a partir daquilo que produz, não para si, mas para os outros. É nos outros que nos encontramos a nós mesmos, o que não implica, contudo, a perda da individualidade e da singularidade infinitas de cada um. Ao utilizarmos a estratégia do servir daremos um passo gigantesco na direção da felicidade integral, ainda muito distante.


 

Daniel Silva é PhD, professor, pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM) e escreve todas às sextas-feiras no ac24horas.

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