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Isolamento

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Uma discussão que deveria ser séria e cientificamente embasada foi politizada nos últimos dias, uns tentando salvar a Economia que se abala com a paralisação das atividades em geral, contra a grande maioria defendendo o isolamento total das pessoas para que não ocorra a transmissão da virose, especialmente mortal para idosos e pessoas com imunidade baixa.

O certo é que há poucos dados para inferir o quanto de mortes a paralisia econômica pode causar e há abundância de informações sobre o ritmo de transmissão da doença e o crescimento geométrico da quantidade de infectados e também de mortos vindas de países onde os casos aconteceram mais precocemente.

A experiência recente mostrou que protelar o isolamento implica em antecipar a ocorrência de uma quantidade grande e simultânea de casos graves. Isso aconteceu com a China e ocorre agora na Itália, França, Alemanha e Estados Unidos. O isolamento social posterga o momento de maior ocorrência, permitindo que os governos se organizem para prestar o melhor atendimento. Ganham tempo para preparar leitos e UTIs e para recrutar profissionais, adquirir equipamentos, medicamentos e kits para exame e também para adotar medidas de mitigação dos impactos na economia. Além do quê, dificultando a transmissão, os casos se diluem melhor no tempo e impactam menos o sistema de atendimento.

Lugares que investiram pesadamente no isolamento social, a exemplo de São Paulo, vêm conseguindo bastante sucesso na redução do ritmo de crescimento dos casos. Na Europa, a Alemanha, que adotou primeiro essa estratégia, está conseguindo muito maior sucesso que a Espanha, por exemplo, que começou atrasada.

Por outro lado, os que priorizaram a preocupação com a Economia se mantiveram num discurso sem dados e perdidos nas ações efetivamente importantes para que a paralisação não implicasse em mais mortes e para que as atividades produtivas e comerciais se recuperassem mais rapidamente após a crise.

E no mais, ficou feio o Presidente da República dizendo “Alguns vão morrer, lamento, essa é a vida”. Principalmente porque, mundo afora, já são algumas dezenas de milhares de mortos e nem chegamos no pico das ocorrências.

Se espera de um líder, que ele dê o exemplo. Enquanto o Ministro da Saúde insiste que o momento é de reclusão e que a palavra de ordem é “fique em casa” e o Ministro da Economia despacha de casa, pela internet, Bolsonaro vai às ruas, confraterniza com simpatizantes e faz proselitismo insistindo que as atividades não podem parar. Desafia os governadores e prefeitos que determinaram o fechamento dos serviços não essenciais com a edição de um decreto autorizando o trabalho sem isolamento.

Felizmente a classe política, de maneira geral, ainda se guia pela maioria da opinião pública, olha para as pesquisas que são diárias, para as redes sociais e para o noticiário. No mundo da informação, quase todo mundo já sabe de um conhecido, parente ou amigo que suspeita ou confirmou ter a virose. Quem acompanha a evolução dos números sabe que brevemente muitos conhecerão alguém que morreu pelo COVID-19. Nessas horas as pessoas preferem ouvir os médicos aos economistas. E os médicos repetem todo o tempo: “mantenham-se isolados”. Daí que os políticos isolarão de vez o Bolsonaro e talvez digam a ele: Lamento, essa é a vida.


 

Roberto Feres escreve às terças-feiras no ac24horas.

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