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Praticar o entendimento

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É quase geral a confusão feita entre ter informação e saber. Nossas escolas parecem ser um pouco eficientes em levar informações aos seus corpos discentes, mas desastrosas em termos de efetivação de saberes. Saber é tem entendimento e habilidade no manuseio do que foi entendido. Para que o aprendizado se efetive, é necessária uma engenharia cerebral cuja finalidade é estruturar neurologicamente, primeiro as trilhas do entendimento, feitas em duas etapas, ambas estruturadas na atenção: entender a lógica e praticar o entendimento da lógica. A atenção é a disposição do indivíduo em não se deixar desviar do seu foco de sensibilidade em momento algum, o que significa que olhar, ouvir, sentir, tocar e até o degustar não devem perder de vista o que se queira aprender. Essas são as vias que concentram o maior número de canais de informações a serem levadas ao cérebro, para que com elas seja construída a lógica daquilo que se quer aprender. Este ensaio tem como objetivo mostrar como a prática ajuda a estruturar o entendimento no cérebro.

Na minha infância, se alguém tinha dificuldade em aprender alguma coisa, os professores faziam o estudante enfrentar inúmeras vezes o seu desafio. Lembro o caso de uma colega que escrevia “casa” com Z. Como o erro ortográfico continuava, a professora deu como tarefa a ela copiar 50 vezes a palavra casa ao longo da semana e entregar nas sextas-feiras. Em um mês o problema estava resolvido. Procedimentos parecidos também eram feitos em relação a atitudes reprováveis. Recordo que durante uma semana tive que escrever 100 vezes a frase “Não devo prender meu colega no banheiro”. Nunca mais na vida cometi tal deslize.

Neurologicamente, esses procedimentos têm explicação louvável. A repetição ajuda a escavar o cérebro, como se provocasse sulcos neuronais, que seriam os caminhos por onde as correntes elétricas percorreriam para estruturar o entendimento procurado pelos estudantes. Entender significa compreender a lógica de alguma coisa, como descobrir que a solução de uma função matemática começa com o ato de transformá-la em equação, que significa tornar todos os membros do lado direito da função igual a zero. A solução prossegue separando-se os termos algébricos dos numéricos e prossegue até que o valor de x ou das incógnitas sejam conhecidos. O primeiro esforço, portanto, tem que ser direcionado para essa aquisição: entender como as coisas funcionam, como funciona a sua lógica, como sua dinâmica se dá. É óbvio demais o papel da atenção para isso: não conversar, não olhar para o lado, não ouvir os barulhos, não se deixar tocar, não falar nada, enfim, direcionar todos os canais de captação de informações para apreender a lógica.

Depois que o entendimento foi obtido, a etapa seguinte é a prática. A experiência tem mostrado que dificilmente alguém que não pratica o entendimento consiga praticá-lo quando for preciso. Aliás, apenas os supergênios conseguem tal façanha, de tão raro que é. Quem entende, até consegue explicar a lógica, mas é incapaz de demonstrar, de fazer, de colocá-la em prática. Todos aqueles que compreendem e não praticaram têm o que a ciência chama de falso conhecimento, falso aprendizado. Do ponto de vista cerebral, é a prática do entendimento que não apenas o estrutura, mas essencialmente o consolida nos locais definitivos de armazenamento.

A prática tem que ser feita assim que o entendimento for adquirido. Entendeu como funciona o processo de solução de equações? Pratique imediatamente. Não deixe para depois, pelo menos não o faça depois de dormir. A razão disso é que o dormir transfere a lógica adquirida para o local definitivo de forma parcial e fragmentada, parecida com os textos que escrevemos na areia da praia em dia de muito vento. Quando o entendimento for praticado, depois de dormir, ele ter-se-á perdido. A regra é, entendeu o assunto? Pratique-o em seguida pelo menos durante uma hora. Repita a prática pelo menos dez vezes. Depois pare. Se puder, durma.

No dia seguinte, tente fazer pelo menos três exercícios sobre o mesmo assunto. Se é um assunto de história ou filosofia, por exemplo, exercite-os escrevendo. Se está estudando “os motivos da pobreza”, entenda o posicionamento de esquerda, direita, centro, religiosos, pacifistas e tudo o mais. Nunca adote um único ponto de vista. Exercite escrever, primeiro, com base em cada uma dessas posições, sem denegri-las e sem deformá-las; depois busque unir duas ou mais posições, sempre escrevendo, fazendo simulações; até que você consiga elaborar sua própria estrutura explicativa para “os motivos da pobreza”. Veja também os posicionamentos da psicologia, ciência política, administração, matemática, finanças, de autores diversos. Busque todas as formas de explicação possível para “motivos da pobreza”. A cada vez que você busca uma nova fonte de informação e a retrabalha, é como se você estivesse colocando mais luz na sua lanterna para ver melhor; em termos neuronais, os sulcos no seu cérebro se tornam mais e mais profundo, consiste e robusto.

Depois que você já tiver aprendido, é preciso que você volte a estudar e praticar o assunto pelo menos uma vez por semana durante alguns meses. Se você obtiver o mesmo desempenho satisfatório na prática dos exercícios, aumente o lapso de tempo de revisão dos assuntos para uma vez por mês durante alguns anos. Ao longo da vida, não importa o quanto você viva, revise sempre, periodicamente, todos os aprendizados que você considerar importantes. É só com a prática que eles se mantêm vívidos, atuais, pois todas as vezes que você os revisar você os estará, também, reconsolidando. Os saberes não são estáticos: se não forem atualizados, desaparecem.

Dizem que Oscar não sabia jogar até a adolescência. Encantou-se com o esporte e se tornou um dos maiores nomes do basquetebol mundial de todos os tempos. Como ele conseguiu? Simples: enquanto seus colegas treinavam algumas horas por dia, seu gênio foi construído praticando milhares de vezes o lançamento da bola na cesta depois dos treinos todos os dias. Milhares de vezes por dia! O mesmo fez Pelé para se transformar no gênio do futebol: treinava pelo menos seis horas a mais do que seus companheiros. Praticar o entendimento faz, de qualquer um, um gênio.


 

 

Daniel Silva é professor, pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM) e escreve todas às sextas-feiras  no ac24horas. 

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