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Falsos aprendizados

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O que se sabe atualmente sobre o cérebro o faz um universo fascinante e surpreendente. O fascínio é decorrente da imensidade de sua capacidade de aprendizagem e da forma como funciona, enquanto que as surpresas vão aparecendo à medida que nossos conhecimentos avançam sobre esse universo fascinante. Até pouco tempo imaginava-se que os neurônios não eram capazes de se renovar, da mesma forma que se pensava que, uma vez aprendido, o aprendizado permanecia lá, parado, aguardando ser utilizado, como se fosse um grande armazém cujos produtos armazenados seriam o que aprendemos ao longo da vida. Ledo engano. Descobrimos recentemente que recordar é alterar o que se sabe. E, mais preocupante (e por que não dizer fascinante e surpreendente?) ainda, as recordações podem ser portas abertas para falsos aprendizados, falsas memórias. Neste sentido, este ensaio tem como objetivo explicar a geração dos falsos aprendizados.

Uma jovem ganhou de presente de aniversário de 15 anos uma estadia de uma semana na Disneyworld. Foram cinco dias maravilhosos, segundo os seus relatos. A força da amizade se fez mais intensa e o carinho e amor por seus pais refizeram diversos momentos de conflitos de pré-adolescência. A menina parecia relembrar e reviver cada instante daqueles dias, talvez os mais felizes de sua curta vida vivida até então. Anos depois, em sessão de análise psicológica feita com o fito de estudar a sistemática de geração de falsas memórias, foi capaz de afirmar com convicção que passeou com o Pernalonga no parque, entrou em conflito com seus pais e até foram parar na polícia. Como isso foi possível, se antes da participação nos estudos científicos, tudo eram flores e felicidades no tempo de turismo no famoso parque de diversão americano?

Certo pesquisador especializou seus conhecimentos em certo filósofo alemão, considerado um ícone do pensamento de esquerda. Sua especialização fora tão alta e refinada que conseguia perceber em um simples olhar toda incoerência e inconsistência que existia em qualquer texto em relação às obras filosóficas originais. O tempo foi passando e aquele colega intensificou seus conhecimentos, agora incorporando as descobertas recentes de outros pesquisadores sobre seu filósofo preferido. Seu conhecimento se transformou em paixão, de maneira que passou a abominar tudo ou quase tudo o que contrariava as ideias filosóficas que detinha. E essa paixão se intensificou de uma forma tal que passou a ler e a incorporar como verdade apenas aquilo que lhe convinha, geralmente em forma do tipo “isso é verdadeiro”, como se se dissesse “isso está de acordo com o filósofo”, e “isso é falso”, como se dissesse o contrário. Até que chegou o tempo em que ele passou até a contestar muitas afirmativas originais do filósofo alemão como se não fossem efetivamente dele.

O que terá acontecido nesses dois singelos casos? No primeiro, a cientista, como parte do protocolo de seu estudo, foi introduzindo, a cada semana, pequenas sugestões de coisas que teriam acontecido (brincou com o Pernalonga, brigou com os pais e ir à polícia), que se consolidaram como coerentes ao longo do tempo. No final do estudo, para sua surpresa, é que percebeu que o Pernalonga não faz parte do universo Disney, da mesma forma que o conflito e a ida à polícia eram falsas. A cientista implantou essas memórias em seu cérebro sem que ela percebesse.

No segundo caso as falsas memórias, da mesma forma, foram sendo acrescentadas aos poucos pelo próprio indivíduo. A cada vez que lia e relia seu filósofo de paixão alterava um pouco seu conhecimento. Suas interpretações, que são novos aprendizados, alteraram, e isso é natural, o que os originais do filósofo diziam. Mas essas alterações não eram deliberadas, planejadas, racionalizadas. E a cada vez que lia os comentadores do filósofo reforçava em si as alterações que tinha produzido. E essas alterações passaram a ser paixão, que é o obscurecimento do aprendizado, e fizeram uma separação do mundo entre ideias que considerava verdadeiras (com as alterações que tinha produzido) e falsas (talvez até verdadeiras em relação às ideias originais do filósofo alemão). Intelectualmente ensandecido, só despertou depois que seu orientador chamou sua atenção sobre o caminho que estava seguindo.

Essas duas estórias, inventadas com base em situações concretas, reais, são apenas exemplos singelos do que acontece rotineiramente: implantamos falsas memórias, falsos aprendizados em nós o tempo todo. E isso é muito mais provável de acontecer quando nos apegamos a uma única ideia (monoideísmo), único autor, única corrente de pensamento. Por incrível que pareça, a forma mais recomendável de se ser de uma corrente é conhecer com profundidade as correntes contrárias; a maneira mais sensata de se especializar em determinada área é auferir conhecimentos em áreas opostas; enfim, a forma mais recomendada de independência e autonomia intelectual é não se apaixonar. E paixão é diferente de amor.

É provável que um dos primeiros passos para a instalação do falso conhecimento seja a impossibilidade de contestação daquilo que se sabe. E isso pode ser percebido pela raiva que o indivíduo sente quando ouve ou lê posições contrárias à sua. É paixão porque há a recusa para testar aquilo que ouve ou lê, que seria a atitude verdadeiramente sensata, se tivesse algum conhecimento sobre o cérebro e como esse órgão funciona. No entanto, ainda que testasse o que está sendo ouvido ou lido, teria que ter consciência de que haverá mudanças no que sabe ao testar a hipótese ouvida ou lida. Assim, ao não testar, reforça o que está armazenado com alguma alteração advinda com a hipótese; se testar, reforça com o que aprendeu. A consciência de que o cérebro transforma o que aprendemos constantemente é um passo formidável para que reconheçamos que não se deve se apegar nem às próprias ideias.


 

 

Daniel Silva é PhD, professor, pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM) e escreve às sextas-feiras no ac24horas.  

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