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Os dinossauros do Acre

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A fábrica acreana de memes pôs na pauta da semana passada o assunto dos dinossauros que darão boas vindas aos nossos visitantes. Confesso que, de pronto, a digestão da ideia foi um tanto difícil. Afinal, não consta que houve tal espécie entre nossos antepassados mais distantes.

Na UFAC, há décadas se desenvolve uma rica pesquisa paleontológica que descobriu fósseis da megafauna da região na era cenozóica. Jacarés gigantes, tartarugas gigantes e preguiças gigantes fazem parte da coleção iniciada pelo amigo Alceu Ranzi.

Imaginem que impressão teria um forasteiro recepcionado pela Preguiça ou por um quelônio, como nosso fraternal representante?
Outro gigante, só que do folclore local, é o Mapinguari. Uma versão cabocla do Pé Grande norte-americano, de feições horrendas e um único olho no meio da testa. Esse certamente está fora de questão porque ninguém quer espantar turistas com uma visão assim logo de chegada.

Me sinto representado pelos dinossauros. As vezes penso até que já sou visto por aí como um deles. Além do mais, são elegantes, esbeltos, e seus traços longos facilitam ao projetista que desenhe um portal leve e com dimensões que não limitem o trânsito dos veículos.

Quando o deputado Flaviano dedicou ao Estado uma emenda para o ‘apoio a projetos de infraestrutura turística’ talvez tenha pensado em algo diferente de um casal de T-Rex ou Diplodocus no trevo das quatro bocas. Mas essa não é uma decisão sua.
Da minha parte acho que um chamariz de turistas deve funcionar como as praças de alimentação do shopping: nunca ficam na entrada para que você tenha que olhar todas as vitrines antes que chegue nelas.

Que bom se conseguirmos efetivamente explorar o turismo para alavancar o desenvolvimento econômico da região. O apelo ecológico das trilhas na floresta, a novidade inusitada dos geoglifos, a gastronomia que incorpora sabores exóticos da flora local, a carne de boi verde, o pirarucu e o tambaqui, são alguns dos nossos atrativos.

O que seria então necessário de infraestrutura para retermos aqui ao menos uma pequena parte dos que seguem por sobre nossas cabeças para os destinos andinos, bem ao lado? Quanto e qual é o papel a ser desempenhado pelo Estado e municípios e onde há espaço de crescimento para o investimento privado no turismo no Acre?

Não sabemos ao certo quem seriam nossos visitantes preferenciais. Recebemos, vez por outra, grupos de motoqueiros, jipeiros e mochileiros. Já é comum cruzarmos com gringos de chapéu e roupas de Indiana Jones no Mercado e com os vizinhos hispanofalantes nos bares e restaurantes, nos finais de semana. Temos hotelaria e instalações adequadas para incentivar a realização de feiras e congressos? Legalizados, estaremos dispostos a permitir cassinos por aqui? Sítios religiosos ou indígenas devem ou não ser destinos turísticos?

Os dinossauros fomos extintos porque não soubemos nos adaptar às mudanças ambientais. Não será com sua imagem bucólica que todas as questões acima serão respondidas, mas com o profissionalismo e a criatividade que o mundo moderno exige.

Sigo grato pela homenagem mas acho que pode ficar para outro momento. Um breve passeio por locais históricos, somente no entorno da capital, será suficiente para levantar meia dúzia de ações por hora mais prioritárias.

Memes a parte, cabe à secretária Sinhasique o mérito de ter trazido o tema a pauta e provocar uma discussão que o Acre merece há tempos. Turismo é a principal atividade econômica de muitos locais e pode sim pesar um pouco mais nas finanças daqui também.


 

Roberto Feres escreve às terças-feiras no ac24horas.

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