Conecte-se agora

Outras notas sobre o agro acreano 

Publicado

em

Valterlucio Bessa Campelo

Dando continuidade à análise do Censo Agropecuário de 2017 publicado há menos de um mês e, novamente pedindo desculpas por adequações de forma e estilo, retomo neste segundo texto a discussão dos dados, tentando esclarecer uma contradição entre o Acre e o Brasil no período intercensitário. A saber, no Brasil a agricultura familiar perdeu quase 9,5% do número de estabelecimentos, enquanto, por aqui, esta fatia do setor teve um incremento de 23%, em movimento evidentemente contrário à tendência nacional. Esclareço que a depender da disponibilidade dos dados no Censo, tomo como agricultura familiar os imóveis com menos de 100 hectares de área total, dado que destes 86% são dedicados àquela tipologia.

Como assinalado no texto anterior, os principais fatores apontados pelos técnicos do IBGE para que no Brasil a agricultura familiar tenha encolhido tão fortemente no período, são o envelhecimento no campo decorrente da fuga dos jovens das atividades agropecuárias e a mecanização que diminui a demanda por mão-de-obra e inviabiliza, pela competição, as pequenas explorações. Teriam estes fatores deixado de atuar no Acre e, assim, estaria explicado o resultado inverso ao registrado em nível nacional? Vejamos:

Analisamos os dados do Censo no que se refere à faixa de idade em que se situam os responsáveis pelos estabelecimentos agropecuários. Para isto, estabelecemos três faixas – menor que 25 anos, entre 25 e 45 anos e mais de 45 anos. Os dados, como se pode ver no gráfico abaixo, revelam que em maior ou menor proporção, dependendo da faixa, o Acre acompanhou a tendência nacional. A faixa dos maiores de 45 anos pulou de 44, 5% para 53,6%, ou seja, mais de 9%. No limite inferior houve um decréscimo significativo – a faixa mais jovem caiu de 7,5% para 5,1%. A faixa intermediária, entre 25 e 45 anos também teve diminuição. Houve, portanto, um envelhecimento médio dos produtores rurais acreanos, assim como no Brasil. Os dados relativos ao pessoal ocupado na agricultura familiar no Acre também são reveladores – aumentou em 21% no período entre 2006 e 2017.

Se, no caso do Acre, o envelhecimento do produtor rural, como se poderia esperar, é um fator atuante, pois as causas principais estão presentes, mormente o fator urbano e suas características, olhemos o segundo grande fator apontado pelos especialistas do IBGE, ou seja, a mecanização, tida como eliminadora de postos de trabalho e, por custo e competição em escala, também de pequenas propriedades. Como o IBGE contém falhas de dados e, especialmente no caso do uso de máquinas e implementos não foi possível fazer comparações, utilizamos como “proxy”, melhor dizendo, como “medida aproximada” do grau de mecanização, o preparo da área para plantio, que se dá normalmente com o uso de máquinas e implementos.

Como demonstra o gráfico abaixo, no período intercensitário o percentual de propriedades no Acre que usa preparo de área para cultivo dobrou, saindo de 14% para 28%, enquanto em termos nacionais, subiu de 37% para 54%. Os dados são gerais, indicando que de modo amplo há um processo de mecanização da produção rural no Brasil que alcança o Acre. Na faixa menor que 100 hectares, o aumento dos estabelecimentos que utilizaram o preparo da área também foi superior a 100%. Essa prática básica, que utilizamos como “proxy” da mecanização não impactou negativamente a agricultura familiar que, como vimos no texto anterior, em sentido contrário, ganhou mais de 6.000 estabelecimentos no Acre no período. 

Ora, se os fatores que a nível nacional explicam a queda de mais de 1,0 milhão de unidades familiares também teriam atuado no Acre, por que não se verificou o mesmo resultado, ou seja, a perda de agricultores familiares? Que outros fatores confrontaram aqueles, servindo de contrapeso, neutralizando-os?

Não há como negar que também no Acre, o campo está relativamente mais velho e mecanizado que há 11 anos, mas também está mais ocupado. Lembremo-nos que em 2006 as propriedades rurais ocupavam no Acre, 3.582.543 hectares e este número hoje é de 4.232.700 hectares, um aumento de 18%. Na mesma toada, em número, os estabelecimentos cresceram 28%. Então, se pode deduzir que este aumento de ocupação se deu por pessoas em faixa de idade superior à previamente existente. Resta considerar o que moveu este aumento de ocupações. 

Sendo ainda uma região de ação considerável do INCRA, a aparente contradição pode ser explicada, em parte, pela inclusão nos últimos 11 anos de aproximadamente 3.600 famílias em 29 projetos de assentamento, que antes não faziam parte do conjunto de produtores rurais alcançados pelo IBGE. 

Creio que se também deve considerar, embora não haja números para verificar, que dadas as condições de baixo dinamismo da economia acreana, a crise bateu com muita força no comércio e na indústria, fazendo com que muitas famílias retornassem ao campo e retomassem a atividade rural, fugindo do desemprego e miséria.

De todo modo, parece razoável afirmar que a reprodução mesma do setor rural no Acre é acompanhada, como em termos nacionais, pelo envelhecimento no campo e pelo aumento da mecanização ainda em baixos patamares, cujos efeitos negativos são compensados parcialmente pela inclusão de novos agricultores e pelo retorno de antigos colonos, posseiros, ribeirinhos etc.  

De outra parte, é possível pensar que a mecanização de áreas, embora tenha sido significativamente elevada também na faixa inferior de tamanho do estabelecimento, pode não ter funcionado como fator de eliminação da pequena propriedade por que não tem a ver com a aquisição de máquinas, que implica alta inversão de capital, mas com a ação de governos, associações, cooperativas, subsídios etc., o que significa um alento como freio ao abandono do campo.

Como conclusão, se é possível tirar alguma a partir de uma análise superficial e ligeira como este espaço permite, diria que é necessário que o INCRA continue a desenvolver o programa de criação de projetos de assentamento, preferencialmente no interior do Acre, nucleando essas áreas, e que o Estado, a título de fomento não-paternalista (atenção!), promova a modernização da agricultura familiar, ações que no conjunto ajudam, pelos dados analisados, a frear o natural esvaziamento do campo verificado a nível nacional. 


 

 

Valterlucio Bessa Campelo escreve às sextas-feiras no ac24horas.

 

Propaganda

Destaque 2

Líder do Bonde dos 13 é preso ao visitar esposa na maternidade de Rio Branco

Publicado

em

Um dos líderes do Bonde dos 13 no maior conjunto habitacional do Acre, a Cidade do Povo, foi preso no início da noite desta segunda-feira, 20.

José Cleiton Alves da Silva, mais conhecido como “Vandoca”, foi encaminhado a Delegacia de Flagrantes no momento em que visitava sua esposa que acabou de dar a luz a um filho na Maternidade de Rio Branco, Barbará Heliodora.

Vandoca já tinha uma condenação na justiça e vinha sendo monitorado pela Polícia. Após a audiência de custódia que deve ser realizada nesta terça-feira, 21, um dos cabeças da facção rival do Comando Vermelho deve ser encaminhado ao presídio  Francisco D’Oliveira Conde.

Continuar lendo

Extra Total

Multidão acompanha procissão em Xapuri no encerramento da Festa de São Sebastião

Publicado

em

“O esplendor da fé no coração de Xapuri”. Mais uma vez o slogan da Festa de São Sebastião foi levado a efeito na tradicional procissão que fechou os festejos e celebrações da 18ª edição do Novenário do Santo Padroeiro do município que se distancia 188 quilômetros da capital acreana, Rio Branco.

Mais de 15 mil pessoas, segundo estimativa da coordenação da paróquia de Xapuri, acompanharam o cortejo com a imagem do mártir cristão pelas principais ruas da cidade.

As celebrações deste dia 20 de janeiro começaram já nas primeiras horas da manhã com a chegada constante de fiéis. Tanto no interior da igreja quanto na imagem que fica do lado externo, foram muitas as manifestações de fé no santo padroeiro de Xapuri.

Desde o ato simples de acender velas e fazer as orações a outros mais sacrificosos como entrar na igreja e ir até o altar de joelhos, o dia foi de agradecimentos e pagamentos de promessas.

Duas missas foram celebradas ainda no período da manhã. À tarde, a concentração de romeiros e devotos se tornou muito grande instantes antes da missa solene que antecedeu a procissão, que saiu da igreja às 17h10.

Durante o percurso, muita oração e pedidos a Deus pelo restabelecimento da paz no Acre, em razão da onda de violência que toma conta do estado e do crescente envolvimento de jovens com a criminalidade e as drogas.

Também em meio ao trajeto, foram feitas três paradas em lugares predeterminados, onde mensagens foram transmitidas aos fiéis.

No ginásio de esportes da cidade, onde os jovens foram lembrados da importância das práticas saudáveis; no museu Casa Branca, onde foi lembrada a luta dos seringueiros-soldados que lutaram para tornar o Acre brasileiro; e, finalmente, no hospital, onde as orações foram direcionados aos enfermos.

Depois de percorrer cerca de cinco quilômetros, o cortejo retornou a igreja de São Sebastião, onde os romeiros foram abençoados pelo pároco Francisco das Chagas Monteiro. A festa religiosa foi encerrada com uma grande queima de fogos e muita música.

Igreja revigorada

Além das manifestações de fé e fortalecimento da devoção em São Sebastião, a festa do santo padroeiro também contribui para a revigoracão da paróquia, que levanta nos festejos os recursos para se manter no decorrer do ano.

Durante o Novenário, várias atividades voltadas para a arrecadação foram realizadas pela igreja. Desde a venda de lembranças da festa, como camisas, imagens, adesivos, terços e fitas, aos bingos, leilões, quermesses e restaurante popular.

Turismo e economia local aquecidos

Outro lado positivo da festa em Xapuri é o aquecimento da economia nesse período do ano. A prefeitura estima que foi movimentado cerca de R$ 1 milhão durante os festejos.

A pequena estrutura hoteleira da cidade esteve lotada desde o começo do mês. Os restaurantes e tradicionais “pensões” não dão conta da demanda, que é suprida pelas vendas informais e pela própria paróquia que disponibiliza restaurante aos visitantes.

Festa com segurança

A Polícia Militar informou que divulgará posteriormente a estimativa oficial de público presente durante os festejos e na procissão.

As informações preliminares a respeito do trabalho das forças de segurança são de que até este dia 20 de janeiro o clima foi muita tranquilidade.

O aparato da segurança em Xapuri conta com policiais do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), Batalhão de Trânsito e Corpo de Bombeiros, além dos efetivos locais da PM e da Polícia Civil.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Continuar lendo

Bombando

Newsletter

INSCREVER-SE

Quero receber por e-mail as últimas notícias mais importantes do ac24horas.com.

* indicates required
Propaganda
Propaganda

Mais lidas