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O sono

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A ciência tem demonstrado por diversos meios que o ato de dormir desempenha inúmeras funções metabólicas, algumas até mesmo vitais. O sono também exerce um papel fundamental no processo de aprendizagem, de forma que se pode dizer que, sem ele, não se aprende. Ele é tão essencial que se pode resumir a dinâmica da aprendizagem em três etapas: começa com a aquisição das informações através dos sentidos ou pelo mecanismo racional, onde informações e conhecimentos são retrabalhados no intelecto humano, prossegue com o sono, etapa em que as informações mantidas provisoriamente no hipocampo são transferidas definitivamente, na terceira etapa, para a memória de longo prazo, seja no córtex, seja no cerebelo. É por isso que não há aprendizagem, se o indivíduo não dormir, o que significa, na prática, que não há como as informações provisoriamente armazenadas sejam transferidas para a memória de longo prazo. Assim, este ensaio tem como objetivo explicar o papel do sono no aprendizado humano.

Quando estamos acordados, o cérebro produz uma série de coisas, algumas boas e outras, nocivas ao nosso corpo. Algumas dessas toxinas aumentam em quantidade, durante o sono, porque as células do cérebro diminuem de tamanho, encolhem. Como consequência, essas toxinas são empurradas para fora do cérebro, parecido como as correntezas fazem com a poluição das águas de um rio. Quando essas toxinas permanecem no corpo, como é o caso dos dias em que não dormimos à noite ou dormimos muito pouco, elas impedem que pensemos com clareza. Além disso, elas também provocam outras coisas ruins, como dor de cabeça, depressão, diabetes e até mesmo a morte prematura. Dormir traz esses benefícios para o corpo e para a vida.

Tão interessante e importante quanto manter a vida, o sono faz quatro outras coisas fantásticas: primeiro, arruma nossas ideias, conceitos e aprendizagens; segundo, apaga as coisas que não são importantes e reforça aquilo que queremos aprender; e terceiro, exercita as coisas complicadas que queremos aprender; e quarto, aumenta nossa capacidade de resolver problemas complexos.

Entender como isso funciona é essencial não apenas para podermos aprender mais e melhor, mas essencialmente para que possamos ensinar e guiar o aprendizado de nossos alunos e parceiros de trabalho que aprendem conosco. É esse tipo de conhecimento, por exemplo, que está fazendo com que países como Finlândia e Coréia do Sul tomem a dianteira no sucesso do aprendizado de seus alunos, enquanto o Brasil continua seu caminho inverso.

Quando acordado, nosso cérebro capta toda sorte de informações através dos sentidos. Na verdade, o corpo humano é uma gigantesca engrenagem de captação de informações. Isso quer dizer que o ouvido é um aparelho de captação de sons, ele não ouve; os olhos são mecanismos de captação de fótons, ele não enxerga; e assim por diante. Quem enxerga, ouve, sente etc. é o cérebro. Mais precisamente, o hipocampo. Informações relativos a movimentos, sentimentos e outros tipos são armazenados simultaneamente em outras áreas, como no sistema límbico e cerebelo. O que queremos dizer, contudo, é que as informações não chegam, todas, ordenadas no cérebro. Isso vai acontecer durante o sono. É aqui que cada coisa vai tomar o seu devido lugar.

Também é no ato de dormir que vai haver o reforço do que interessa e supressão daquilo que não interessa. Aquilo que nos interessa, tendemos a captar mais informações. Por exemplo, se tenho interesse em um assunto, procuro me informar a cada dia sobre ele. O cérebro vai interpretar isso como de importância, diferentemente daquele assunto que a gente capta informação uma vez e deixa de lado. Quanto mais o cérebro recolhe informações sobre alguma coisa, mais ele tenderá a interpretar como importante e, portanto, reforçará a memória sobre ele. O inverso ele faz com o que considera desnecessário, apagando-o.

O cérebro pode ser nosso grande parceiro nos desafios da vida. Tanto é assim que, durante o sono, ele exercita diversas e muitas vezes as coisas mais complicadas que queremos aprender. E ele sabe o que é complicado, naturalmente, porque, durante o tempo de vigília, quando enviamos as informações, erramos mais do que acertamos (veja a importância do errar), e por isso repetimos o envio da informação (repetimos o exercício), que significa dizer ao cérebro o que é importante e complicado para nós. O que fazemos acordados o cérebro vai fazer em quantidade muito maior durante o sono. Isso vai aprofundar e fortalecer os padrões neuronais do aprendizado.

E vejam que coisa interessante: o cérebro, enquanto dormimos, procura as soluções possíveis para os problemas complexos que queremos resolver. Isso é consequência das construções de novas relações entre os padrões neuronais, que estão armazenados em diferentes áreas. Durante o sono, essas áreas começam a conversar, a travar diálogos antes inexistentes ou realizados de forma incipiente ou inadequada porque carente de informações ou de interesse nosso neste sentido. Em linguagem técnica, o modo difuso (novas conexões) começa a testar as lógicas dos modos focados (as soluções que existem) para criar uma nova lógica a partir das lógicas existentes.

Evidentemente que, se soubermos como lidar com essas coisas, poderemos ter no sono um grande e fundamental aliado para os nossos desafios de aprendizagem e de ensino. O cérebro funciona de uma forma inteiramente natural em um sentido que, a partir da nossa compreensão sobre essa forma de funcionar, nos permite provocar aprendizagens surpreendentes. Se alguém revisa por alguns poucos minutos antes de dormir, por exemplo, aquilo que quer aprender e desejar sonhar com tal assunto, a probabilidade de fazer o cérebro organizar o aprendizado em blocos mais fáceis aumenta enormemente. E se esse processo se repetir, as chances de aprendizagem efetiva são praticamente completas. O sono nos faz sonhar com aprendizados incríveis!


 

Daniel Silva é PhD, professor, pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM) e escreve todas às sextas-feiras no ac24horas. 

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