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Um homem honrado do Acre

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A política sempre foi uma atividade muito questionada. Óbvio que isso se deve à sua própria natureza popular, pois o povo gosta, participa, discute e escolhe, ao menos em tese, livremente seus representantes.

Ocorre que nos últimos anos essa atividade entrou em processo de putrefação moral. Ninguém acredita em mais ninguém. O que era uma atividade exercida por vocação, passou a ser profissão, meio de vida, um bom negócio.

Antigamente, um político ganhava eleições em cima de suas propostas e credibilidade. Hoje, homens como Ulisses Guimarães, Paulo Brossard, Nelson Jobim, Nabor Junior e Jorge Kalume dificilmente ganhariam um eleição, pois a maioria delas são compradas a peso de ouro.

Gastam “um tanto para se locupletarem com outros tantos”. Faço esta singela introdução para escrever sobre um político que dignificou a política e o Acre: Nabor Teles da Rocha Junior, o nosso Nabor Junior, Naborzinho, ou como os mais antigos o chamam em Tarauacá, o Jôjô.

Nabor foi deputado estadual, federal, governador e senador da República. Em 40 anos de vida pública nunca se ouviu falar que estivesse envolvido em maracutaia.

Nabor foi governador na transição do governo militar para o civil. O general João Figueiredo, presidente à época, o tratava com total indiferença, pois quando deputado federal Nabor recusara-se a trocar o seu MDB por uma nova legenda que o presidente pretendia criar.

Figueiredo nunca o perdoou pela negativa. Nas escassas e protocolares vezes que foi recebido em audiência como governador do Acre, a conversa era a mesma: não há recursos. Mesmo assim Naborzinho espalhou escolas pelo Acre, melhorou o salário dos servidores, asfaltou com recursos próprios as estradas para a praia do Amapá, Porto Acre e Plácido de Castro, onde alguns trechos ainda permanecem após 33 anos. Fez as pontes de Brasileia e Sena Madureira. Paro por aqui com as obras para o texto não ficar muito longo.

Naquela época não havia Fundeb, as malfadadas emendas de parlamentares ou empréstimos. Era o FPE e a arrecadação própria, limpos e secos.

Nabor é da espécie de político que não se pode classificar com poucos adjetivos, sob pena de, injustamente, se deixar de citar muitos.

Entre os muitos destes é importante ressaltar a tolerância e o seu espírito e práticas democráticas.

Alguns exemplos disso: Nabor era deputado estadual, José Augusto, governador do Estado e Tupanir Gaudêncio um duro e competente adversário político de ambos em Tarauaca.

Pressionado por aliados, o decreto de transferência funcional de Tupanir já estava “batido”. Ao tomar conhecimento, Nabor convenceu o então governador a rasgá-lo. Nabor nunca admitiu perseguição.

O atual deputado José Bestene era gerente do Banacre em São Paulo, Osmir Lima presidente do banco e Nabor, governador. Também, pressionado por aliados, Nabor ligou para Osmir e perguntou qual era o desempenho de Bestene no banco.

Com a resposta de que se tratava de um dos melhores gerentes, Nabor manteve Bestene no cargo até este ser afastado por Iolanda Fleming, que fez os “gostos” dos aliados quando assumiu o governo. Bestene era irmão de Félix Bestene, um deputado de oposição à Nabor.

Omar Sabino foi eleito para o Conselho Estadual de Educação, mas a nomeação dependia do governador. Novamente os aliados entraram
em ação para embargar. Em audiência, Nabor disse a Omar: “Doutor, o mais difícil o senhor já fez, que foi vencer. Eu vou apenas homologar seu nome.”

Apesar de tudo isso, em 2002, quando disputava novamente a eleição para o Senado, a Frente Popular fez a mais sórdida e covarde campanha contra ele, cujo mote era “Nabor, nunca mais”.

Isso, mais o “olho grande” de seus parceiros que lançaram outros cinco candidatos ao mesmo cargo, fez de Nabor Junior o quarto colocado no pleito daquele ano.

Aos 88 anos, lúcido e mais sábio do que nunca, Nabor resolveu lançar um livro de memórias.

Em Tarauacá, o lançamento será dia 4 de setembro, e em Rio Branco no dia 6, no auditório da Federação das Indústrias.

Ainda estou nas primeiras páginas do livro que recebi com uma dedicatória que eu não mereço, mas afirmo sem medo: é preciso mais de um livro para contar a história de Nabor.


 

Luiz Calixto escreve às quartas-feiras no ac24horas

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Luiz Calixto

Justiça seja feita

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Se a lei é, utopicamente, para todos, independente do sujeito ser rico, pobre, branco ou preto, a balança da justiça social deve, ou pelo menos deveria, pender para o lado mais fraco.

Se, necessariamente, uma das funções basilares do Estado é arbitrar a peleja da sociedade entre os fortes e os fracos, óbvio que este deverá ficar do lado onde a corda arrebenta com muito mais facilidade.

Em que pese todas as falhas, corrupções e o mal atendimento do sistema de saúde pública, imaginemos o caos social se não fosse o SUS, um dos maiores exemplos mundiais de justiça social.

Se pessoas morrem esperando atendimento nas filas e corredores dos hospitais, mais gente morreria se o povo não tivesse sequer a possibilidade de procurar essa extraordinária modalidade de atendimento universal gratuito.

Não fosse os conceitos de justiça social, Estados de economia frágil e completamente dependentes já teriam sumido do mapa há muito tempo.

A distribuição dos fundos constitucionais –entre os quais os mais famosos, o FPE para os Estados, e o FPM para os municípios– é também uma das formas de transferência de renda dos mais ricos para os mais pobres.

Por exemplo: São Paulo, o mais rico e mais desenvolvido, é o maior arrecadador de Imposto de Renda e IPI. Todavia, na distribuição das cotas do FPE, a terra da garoa é o último colocado no ranking da partilha.

O Acre, salvo engano, é o penúltimo colocado na arrecadação de tributos federais; e se não for o primeiro, seguramente é o segundo ente da federação a receber o maior valor do repasse mensal das transferências constitucionais.

Isso é justo. Não se combate desigualdade regional sem justiça social.

Não é honesto, por exemplo, que o IPTU do bairro Morada do Sol seja calculado pelos mesmos parâmetros do Taquari.

Recentemente, nossa Assembleia Legislativa votou uma lei tratando da distribuição da parcela de 25% do ICMS para os municípios.

No noticiário havia reportagens sobre a insatisfação dos prefeitos de Rio Branco, Brasileia, Epitaciolândia e Cruzeiro do Sul, que se diziam injustiçados e merecedores de uma fatia maior do bolo do ICMS.

Pela frieza da matemática, óbvio que esses municípios teriam direito a um quinhão maior, mesmo toda torcida do Flamengo sabendo que nos locais onde estão instaladas as Zonas de Livre Comércio, a arrecadação destes é inflada por situações nada republicanas.

Ora, se Rio Branco ficar com a proporção a que diz ter direito pelos cálculos da circulação de mercadorias e serviços, como ficará a situação de municípios como Tarauacá, Jordão, Marechal Thaumaturgo e mais 18 destes?

O Estado do Acre não pode patrocinar a injustiça, sendo que ele é o maior beneficiado pela justiça.

Diminuir a participação do ICMS de Sena Madureira em favor da capital tem a mesma lógica de subtrair o FPE do Acre para credita-lo a São Paulo.

Os Estados e municípios mais ricos têm outras possibilidades de explorar fontes de receitas próprias para compensar o pouco que perderam para fazer justiça.

Qual o valor do IPTU de uma empresa instalada numa das ZLC, cujos benefícios fiscais generosos giram em torno de 20% do valor dos produtos? Quer dizer que Cruzeiro do Sul, Brasiléia e Epitaciolândia são aquinhoadas com isenções de impostos estaduais, federais e contribuições e ainda desejam subtrair receitas dos municípios que não conseguiram ingressos para esses shows de privilégios?

O movimento comercial de Cruzeiro do Sul não seria o mesmo não fosse os outros quatro municípios acreanos do seu entorno.
A locomotiva tem que arrastar os vagões.

Se a lei deve ser dura, a justiça social deve ser justa.


 

Luiz Calixto escreve todas às quartas-feiras no ac24horas. 

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Luiz Calixto

De mal a pior

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De todos os males que o PT fez ao Brasil (e no Acre não foi diferente), talvez os piores tenham sido dividir a sociedade em os “bons” e os “maus”, além de tornar a política uma atividade marginal.

Óbvio que instrumentos de militância pregavam insistentemente que os bons eram eles e os ruins, os outros.

As casas legislativas, no lugar de ser, como deveriam ser, o local das discussões e de encaminhamento das melhores soluções dos inúmeros problemas da sociedade, passaram a ser enxergadas como covis de ladrões.

A política passou a ser um bom negócio. O que justificaria alguém em sã consciência gastar 5x numa campanha para, ao final de 4 anos, receber o montante de 1X?

Foi decepcionante e pesado demais para o povo brasileiro ver o partido que subiu ao poder pela escada da ética e que apontava o dedo da moralidade na cara de todos, se afogar na lama apodrecida da maracutaia.

O profundo descrédito pode ser comparado ao hipotético exemplo de uma casta freira carmelitana flagrada saindo de um motel: nunca mais a reputação do convento foi a mesma.

Os anos acumulados pelo PT no poder acabaram por transformar a política numa atividade bandida.

De fato, por se tratar do segmento mais democrático e, por essa razão, o mais questionado, os políticos sempre estiveram na alça da mira popular.

No entanto, depois dos sucessivos escândalos de corrupção petistas, o quadro se agravou e a metástase da sem-vergonhice de alastrou de tal forma a contaminar a todos. Não que antes do PT tenha sido diferente, convenhamos, mas o partido se firmou com a promessa de resistir e combater o câncer da corrupção.

Atualmente, por mais compromissado que este seja, o povo sempre olha de soslaio e com total desconfiança, medindo todos aqueles que se envolvem na política com a mesma régua da indecência.

Não se trata de uma utopia: interesses pessoais sempre existiram, e nem deixarão de existir, mas estes, nem de perto, chegaram a ameaçar os interesses coletivos.

No Congresso Nacional a moeda para “convencer” parlamentares atende pelo popular nome de “emendas”. De liberação impositiva e com finalidade “carimbada”, ou seja, com fim previamente especificado, essas emendas se tornaram num “prato cheio e outro esborrando” para a corrupção.

Fato é que a decepção petista reduziu à pó bons nomes da política e pariu o fenômeno chamado Bolsonaro, um deputado medíocre que passou 27 anos perdido no ostracismo dos corredores do Congresso e foi alçado à condição de novidade da política brasileira.

No futuro o povo saberá o preço total dessa fatura. Por enquanto, a raiva nutrida pelo PT está sendo suficiente para liquidar as primeiras parcelas.


 

 

Luiz Calixto escreve todas às quartas-feiras no ac24horas.

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