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A nova educação

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Ao longo da trajetória humana na face da Terra, um grande processo evolutivo permitiu que chegássemos ao estágio em que nos encontramos hoje. Ainda que muitos possam contestar, com razão, essa trajetória foi sempre evolutiva, no sentido de que aprendemos, nos estágios posteriores, as lições dos estágios pregressos, ainda que isso assim não pareça aos olhos de muitos. Essa visão panorâmica, por exemplo, nos permite perceber que do tempo em que bastava um olhar feio de A para B para que B se sentisse no direito (reconhecido por todos ou quase todos) de aniquilar A, sua família, seus escravos, sua comunidade e se apropriar de todos os bens, para hoje, pouquíssimo restou, a não ser, efetivamente, uma boa parte das imperfeições morais. E é justamente esse caráter substantivo que a nova educação precisa mirar para que se adeque aos novos tempos. Para isso, naturalmente, todos, tanto os profissionais da educação quanto cada ser humano, precisam compreender como funciona o fenômeno da aprendizagem. Neste sentido, este ensaio tem como objetivo mostrar os meandros da nova educação que o planeta precisa e aspira.

Todos os fenômenos educacionais têm e sempre tiveram um ponto de convergência: o aprendizado. Todos aprendemos o tempo todo, ainda que não queiramos, ainda que não percebamos.

Aprendemos com a dor, aprendemos com o prazer, aprendemos com a diversão, aprendemos com as aflições. Aprendemos em casa, nas ruas, nas escolas, nos clubes, nas prisões, no campo, na praia nas montanhas. A aprendizagem, enfim, é o grande fenômeno que norteia e orienta todas as atividades humanas, todas as suas ações, os seus sentimentos e os seus sentimentos. Infelizmente, contudo, raros são os profissionais da educação em terras brasileiras que entendem de aprendizagem, quase todos de fora da área da educação. E esses raros, contudo, têm contribuído para com o grande esforço mundial de tornar claro tanto o fenômeno da aprendizagem, assim como o processo pelo qual ele se instaura e se consolida. Isso tudo começa com o conhecimento do cérebro.

Todo profissional da educação precisa conhecer tão profundamente o cérebro quanto os especialistas das várias áreas que se ocupam desse órgão ao mesmo tempo formidável e estranho. O que se sabe hoje é que é ali que o aprendizado é “armazenado”. Há regiões cerebrais onde se iniciam os aprendizados, mas que não são nelas que ele se consolida, onde é colocado definitivamente, no que se chama de aprendizado de longo prazo. É preciso conhecer o que acontece, por exemplo, quando se quer que alunos aprendam uma simples equação de primeiro grau. Qual é a dinâmica do processo? O que o emissor (mediador do conhecimento) tem que fazer? Que tipo de mensagem tem que ser utilizada para alcançar determinada região do cérebro? Que canais devem ser utilizados para cada tipo específico de mensagem (conhecimento e habilidade) a ser transmitida? Quais são os receptores intermediários? Quais são os locais de armazenamento temporários e definitivos? Sem conhecer com profundidade essas respostas, hoje, ninguém pode se considerar profissional da educação. Apenas estará fazendo de conta que ensina, sem que disso tenha consciência.

Mostraremos ao longo desses 40 ensaios, primeiro, como funciona o cérebro. O que é o córtex, como ele funciona, que tipo de conhecimento/habilidade ele processa, que tipo de conhecimento/habilidade ele armazena? O que é o sistema límbico, como ele funciona, que tipo de conhecimento/habilidade ele processa e armazena? O mesmo será feito em relação ao cerebelo. O que são os dendritos e por que eles são nocivos à aprendizagem e à própria existência humana? Por que sem dormir ninguém aprende? Qual é o tempo máximo que se pode usar para transferir informações para o cérebro? Qual é o máximo de informações que o sistema límbico comporta? Por que é inútil estudar muito de uma só vez?

Em seguida conheceremos como funciona a aprendizagem como consequência do funcionamento do cérebro. O que é aprendizagem focada, o que é aprendizagem difusa? Por que aprender coisas novas e desconhecidas é difícil? Por que matemática, ciências e linguagens são um verdadeiro desafio para serem aprendidas? Como vencer essas dificuldades? Será que nossos alunos realmente aprendem, ou eles, no máximo, entendem a lógica das coisas? Por que é impossível aprender sem exercitar? Por que tem um tempo máximo entre o entendimento e a aprendizagem, de forma que, se esse tempo passar, ninguém aprende? Qual é esse tempo? Quanto tempo depois do entendimento e da aprendizagem temos que dormir, para que a aprendizagem se consolide?

O terceiro bloco de ensaios vai mostrar como aprendemos. As estratégias genéricas que aqui serão apresentadas e descritas são todas fruto de inúmeros experimentos científicos por cientistas da educação de todo o planeta (raríssimos são os casos brasileiros, quase todos de fora da área da educação), que podem ser perfeitamente adaptados para qualquer espaço pedagógico e qualquer público. A finalidade da apresentação dessas estratégias é que se compreenda a dinâmica que há entre o funcionamento do cérebro e o aprendizado que se dá nos indivíduos que desejam aprender.

O quarto e último bloco apresentará dez ensaios que mostram as finalidades substantivas de toda e qualquer educação: o alcance da felicidade, ainda que saibamos que a felicidade seja inalcançável continuamente. A felicidade é um fenômeno transitório, episódico e fugaz. E não outra forma de se alcançar a felicidade que não seja através do amor. Amor, não em forma de sentimento, ternura, mas além disso: fazer ao outro o que gostaríamos que o outro fizesse para nós. Talvez o mais próximo entendimento que temos para compreendermos o verbo amar seja o pedido que o Cristo fez há dois mil anos: servir. Isso quer dizer que não é o trabalho a que deve mirar a educação, mas o servir. A razão disso é que, ao aprendermos a servir, estaremos praticando as oito lições que toda escola, toda família, todo clube, toda organização, enfim, todo grupo humano associado deve praticar para que efetivamente o amor predomine no planeta. É essa a nova educação que aqui delinearemos seus contornos.

 


 

Daniel Silva é PhD, professor, pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM) e escreve às sextas-feiras no ac24horas 

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