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Chamem o Freud

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Não entendo absolutamente nada de psicanálise, mas sei que tem coisas na política brasileira que ninguém consegue explicar. Nem Freud.

Aliás, se o mais famoso de todos os psicanalistas fosse ainda vivo, morasse no Brasil e atendesse no departamento médico do Congresso Nacional, a fila de parlamentares para atendimentos seria quilométrica.
Qualquer cidadão que esteja gozando de suas faculdades mentais constatará que o país vive sob uma perigosa histeria nacional e a classe política se transformou numa verdadeira gaiola de loucos.

O tema que mais discutido nas rodas econômicas é a reforma da Previdência. Segundo os alarmistas das maiores corporações financeiras do mundo, se a dita cuja não for aprovada para prover a economia nacional com o corte de R$ 1 trilhão em 10 anos, o Brasil fechará para balanço.

Da mesma forma, segundo a propaganda oficial, a reforma é a redenção da classe trabalhadora e, ato continuo à vigência dela, milhões de postos de trabalho serão gerados.

Argumento semelhante também foi usado para aprovar a reforma trabalhista.

O que Freud precisaria explicar é o seguinte: se a reforma é boa para todos, por quais razões o governo tem imensas dificuldades para convencer 308 deputados federais a votar a favor da emenda?

Estranho que deputados e senadores sejam tão vorazes ao exigir cargos e vantagens para votar a favor de algo que é tido como bom para seus eleitores.

Se é, de fato, uma dádiva, por que os governadores fogem dela e querem transferir o peso dos regimes próprios dos Estados para o lombo do governo federal?

Se boa é para a classe trabalhadora, só a burrice levaria o governo a gastar alguns milhões de reais para tentar convencer os trabalhadores a aceitarem o que lhe beneficiará? Em tempo: só o “jabá” do apresentador Ratinho foi de R$ 280 mil.

Durante os 27 anos de deputado federal, Bolsonaro votou contra as reformas propostas por FHC, Lula e Dilma argumentando na ocasião que as mudanças nas regras da Previdência atentavam contra os legítimos interesses da classe trabalhadora.

Alçado à presidência da república galopando nas costas decepção do povo brasileiro com a política, o mito agora é a favor da mudança e questionado sobre essa metamorfose, respondeu em tom mais grosso que papel de embrulhar prego:

–– Vou me arrepender porque fiz xixi na cama aos cinco anos? Saiu, pô.

A reforma não é para combater privilégios. Isso é apenas um álibi criado pela marquetagem pura e simplesmente para estimular as brigas entre as diversas categorias.

Se o fim dos privilégios fosse o objetivo dela, por que não se faz uma reforma focada apenas nisso? Ou um trabalhador rural que trabalha, ininterruptamente, de sol a sol até os 65 anos para poder se aposentar com um salário mínimo é um privilegiado? Ou o Benefício de Prestação Continuada, o tal BPC, de menos de 1/2 salário mínimo também é uma concessão diferenciada?

O fato é que o capital financeiro vai aprovar a reforma, custe o quanto custar, não porque ela é boníssima ou vai combater privilégios, mas porque o imenso buraco cavado pela corrupção no Brasil nas últimas décadas precisa de muitos sócios para tapá-lo.

Falar a verdade seria mais honesto.


Luiz Calixto escreve as quartas-feiras no ac24horas.

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Luiz Calixto

Cachaça e caviar

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Eis que depois de semanas mais parado que água de cacimba, o Acre foi abalroado com uma notícia que testou, de uma vez por todas, a veracidade dos ditados populares “quando a onça tá morta aparecem muitos corajosos para enfiar o dedo na venta dela” e “bocado comido, bocado esquecido”.

É isso: um dos donos da Cia. Selva foi às redes sociais denunciar um suposto catrepe aplicado pelo PT e ainda ameaçou os antigos companheiros de recorrer à Justiça para receber os haveres pendentes.

Junto com a reclamação, a declaração de pobreza que “loba petista” o havia deixado sem condições financeiras para continuar saboreando o legítimo uísque 18 anos e, por essa razão, estava obrigado a tomar cachaça Ypioca, uma pinga cearense vendida até em doses de 1 real.

Pois bem: a Cia. de Selva chegou ao Acre pelas mãos do saudoso governador Orleir Cameli, trabalhou na gestão municipal de Flaviano Melo, mas foi no governo petista que a empresa pintou e bordou.

Não é segredo no Estado que a verba da mídia intermediada se destinava muito mais para adequar e controlar a linha editorial da imprensa local que propriamente para fazer a propaganda das ações governamentais.

Ao longo dos anos de bonança, alguns milhões de reais transitaram pela conta corrente da empresa e jornais e jornalistas se ajoelhavam aos pés do governo para poder provar do milionário bolo midiático.

Os donos da empresa iam além das funções publicitária, pois também participavam das principais decisões e rumos dos governos petistas.

As lamentações não devem passar de reles deboches, pois, no Acre, poderia faltar dinheiro para o pagamento de qualquer credor, menos para a Cia de Selva. Foram décadas de regularidade de pagamentos. Faltou dipirona nos hospitais, mas não faltou dinheiro pra imprensa.

A serem verdadeiras as declarações isso vem a provar que o reclamante agiu como se o contrato fosse eterno. Um contrato desses em minhas mãos nunca me faltaria nem para o uísque da melhor espécie nem para o legítimo caviar. Difícil acreditar que não haja nas contas dos sócios da Cia. de Selva alguns milhões lucrados em quase 25 anos de relação comercial com o Estado e que passará para a história acreana como relação de comércio governamental mais longeva.


Luiz Calixto escreve às quartas-feiras no ac24horas

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Luiz Calixto

Tirando da reta

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Não foi acaso que os deputados federais deixaram os Estados e municípios fora do texto da draconiana reforma da Previdência. Não se iludam. O passo foi milimetricamente calculado pelos lobistas do mercado financeiro. Caso contrário a quantidade dos votos nem chegaria perto do mínimo necessário para aprovar a emenda.

Para entender isso é preciso mergulhar na essência do povo brasileiro. Somos uma nação sem memória, que não é capaz sequer de lembrar o que almoçou na segunda-feira da semana passada. Não seria exagero afirmar que somos um “bando de gente” sem rumo.

A rigor, e em respeito ao pacto que delega aos entes da federação autonomia financeira e administrativa, as leis sobre as aposentadorias dos servidores municipais e estaduais regidos por estatutos deveriam ser votadas nas Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais, respectivamente.

Redundante lembrar que os regimes de previdências são “próprios”. Vale ressaltar, no caso do Acre e do município de Rio Branco, que o Acreprevidência e o RBPrev foram criados por leis votadas aqui mesmo.

Pois bem: ocorre que a dita reforma, que já impôs no lombo dos trabalhadores privados um fardo impossível de ser carregado, também será muito mais cruel com os servidores públicos. Tão amarga que será impossível de ser esquecida nas eleições de 2020, para prefeitos e vereadores, e de 2022, quando ocorrerão as disputas para governadores,deputados estaduais, federais e senadores.

Foi nesse vácuo que os estrategistas políticos enxergaram a janela para incluir Estados e Municípios através de uma proposta de Emenda Constitucional paralela, a famosa PEC paralela, a iniciar-se no Senado Federal.
Do total de 81 senadores, apenas 27 mandatos serão submetidos a renovação em 2022. Os 54 restantes estão “poluindo e andando”, com o burro amarrado na sombra, com mandatos até 2027. Ou seja: com tempo mais que suficiente para o povo esquecer dos votos deles.

A estratégia tira do espinhaço dos governadores, deputados federais, estaduais e vereadores o peso da impopularidade na disputa de um novo mandato.

Ao exercitar o sagrado direito de divergir da minha opinião, então responda: se a reforma é boa e é a salvação da lavoura, por quais motivos a Câmara Federal se esquivou de votá-la?

Por qual razão governadores, prefeitos, deputados estaduais e vereadores abririam mão de serem patronos desses benefícios?

Por que querem tirar “ o “ deles da reta?

Fácil de responder: o ferro vai entrar, mas os prejudicados esquecerão de tudo bem ligeirinho, como sempre.

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