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A síndrome do escorpião

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Nabor Júnior venceu a primeira eleição de governador do Acre, em 1982, na transição da ditadura militar para a democracia plena. Vivia-se a adaptação da superação recente do  bipartidarismo e as eleições gerais foram realizadas para os Governos Estaduais. O candidato, além do MDB, obteve o apoio de forças que dissentiram e se desligaram da ARENA, do Juruá, mediadas por Osmir Lima, e que foram decisivas para sua vitória.

Na composição do governo, Nabor Júnior conciliou como pôde as várias correntes existentes no PMDB, mas  não declinou das forças complementares ao seu êxito. Nomeou, representando-as, dentre outros, o médico José Alberto para a Secretaria Estadual de Saúde.

O governo subsequente do PMDB mostrou ação similar. Apoiado na eleição pelo clã dos Vianas, advindo da ARENA, o governador eleito, Flaviano Melo, incluiu Wilde Viana, seu filho, Jorge Viana e seu genro, Luís Carlos Paiva em seu governo, mesmo em detrimento de forças internas do Partido.

Os dois vice-governadores, que assumiram a direção do Estado, Iolanda Fleming e Edson Cadaxo, mantiveram no essencial os arranjos políticos e não alteraram significativamente as relações políticas estabelecidas por seus titulares.

Depois do final de 1990, o PMDB não voltou mais ao comando da cena estadual, enquanto o Partido dos Trabalhadores, PT, numa aliança nominada Frente Popular do Acre venceu as eleições de governo de 1998 e manteve-se no poder até o final de 2018.

Em 1999, foi fundado o Movimento Democrático Acreano – MDA – como força de oposição ao governo de Jorge Viana, da Frente Popular. O nome da sigla MDA foi emplacado pelo então deputado estadual, César Messias, do PP, numa alusão direta e unívoca ao combate à ditadura militar efetuado pelo MDB nacional. Precisava-se fazer o mesmo no Acre. Fez-se.

Na ocasião, o MDA foi composto pelo PP, PFL e PMDB, sob o comando geral do senador Nabor Júnior. Esta aliança política formal venceu em diversos municípios do Acre, especialmente na capital, Rio Branco, com os candidatos Flaviano Melo pelo PMDB e Isnard Leite de vice pelo PP.

Vale salientar que, sob o comando do PMDB, do prefeito Flaviano Melo, os três partidos mencionados venceram juntos a eleição e governaram juntos a PMRB. As indicações dos quadros dirigentes foram partidárias e não pessoais, baseadas em amizade. O PFL indicou, por exemplo, através de seu presidente Alércio Dias, as titulares da secretaria de administração, Maria Albertina e da secretaria de educação, professora Raimunda El Shawa; o PP, além do vice-prefeito, Isnard Leite, indicou para o gabinete Civil, Zezé Gouveia, para a Sensur, Tancremildo Maia, para a Emurb, Lauro Julião e para a secretaria municipal de saúde, José Bestene, dentre outros. O PMDB fez suas indicações e o próprio prefeito teve a sua cota de escolhidos.

DNA de CHUPINS ?

Quando Flaviano Melo renunciou ao cargo de prefeito, para candidatar-se ao governo do estado, assumiu o vice-prefeito, Isnard Leite. O desenho político administrativo do Novo Prefeito mudou radicalmente, em comparação com seu antecessor. Passou a se exigir filiação partidária ao PP dos administradores dos outros partidos e acabou se efetuando uma grande ação entre amigos. Alguns críticos manifestaram seu desacordo com esta prática designando a atitude de “ vitória dos chupins “. O MDA não resistiu aos ferimentos em seus princípios vitais e foi extinguido enquanto força política promissora.

Do MDA aos dias de hoje, o espectro das forças em confronto com a Frente Popular se expandiu com elementos oriundos do seio da própria Frente Popular. A Coligação Mudança e Competência é um exemplo eloquente desse fato.

O que se espera de um governo eleito por uma coligação política? O respeito aos coligados e os espaços no governo são o mínimo que se se espera de uma aliança vencedora. Isso seria o reconhecimento aos partidos que ajudaram a construir a vitória. A composição do governo deveria representar a participação relativa das forças políticas que construíram a aliança.

O governo atual, composto por onze partidos políticos, tem conseguido desagradar à quase totalidade deles. Quem, efetivamente, está no poder são o partido do governador ( Progressistas ) e do vice-governador ( PSDB ). Os demais partidos da aliança tiveram que se contentar com as migalhas que lhe foram destinadas. Estão no governo, mas não estão no poder. É uma questão de boa índole respeitar os aliados e não tentar destruí-los. Faz lembrar a índole do escorpião, que, ingrato, não se conteve e ferroou o sapo que o ajudou a cruzar o  riacho.

O que deveria ser uma questão moral, ética, não parece estar presente na índole do partido do governador ( ou do próprio? ). Os aliados não sentam à mesa das decisões, não são convidados a discutir e propor políticas públicas capazes de tirar o Estado da condição de miséria em que se encontra. Ao se isolar, ao se cercar de assessores sem experiência política, ao abrir generosos espaços para os adversários, ao não promover a mudança que a população sonhava, o governo começa a demonstrar fraqueza e insegurança.

Conforme já demonstrado antes, não é essa a forma de agir do MDB, não é  o DNA que acompanha sua trajetória no Acre. Se não ocorrer uma mudança radical de rumos nas atitudes do atual Governo do Acre, a aliança que o gerou enfrentará o mesmo desfecho do MDA.

E os chupins feito os diamantes vão se eternizando…

João Correia é professor universitário e escreve em ac24horas todas às quintas-feiras                       

 

 

 

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João Correia

A Homilia

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Há um tipo de anedotário popular que trata de questões que jamais ocorreram factualmente, mas que muito bem poderiam ter acontecido no todo ou em parte. Inscreve-se nesse tipo uma historinha quase picaresca que diz que o Bispo Prelado, Dom Moacyr Grechi, numa missa dominical, no rito da palavra, em sua homilia, utilizou passagens dos Evangelhos como base de pregação contrária aos processos de violência e de saque a que estavam submetidas famílias de seringueiros tangidas por grileiros e jagunços pelo Acre. Todos os sofredores estariam ao deus-dará.

Na Catedral de Rio Branco, assistia à missa o Governador Geraldo Mesquita, que, consternado, teria se dirigido para perto do púlpito e pedido ao bispo um aparte em sua fala.

Geraldo Mesquita e Moacyr Grechi já foram para o Reino do Tempo da Memória. Dom Moacyr partiu anteontem. Há uma terceira personagem de proa nos acontecimentos desta época que continua dentre nós, ainda que merecedor de cuidados especiais, que é o João Maia da Silva Filho, da CONTAG. Mesquita, Grechi e Maia são sobrenomes referenciais de atores da história recente do Acre. Cada um deles merece livros e biógrafos.

Voltando ao plano interno, no início dos 70 do século passado, os conflitos pela terra haviam se multiplicado na maioria dos municípios para a formação e funcionamento do mercado de terras. Hordas de seringueiros autônomos e ocupantes dos seringais transacionados foram expulsos de suas colocações e moradias que habitavam e deslocaram-se aos centros urbanos mais próximos, por toda superfície do Acre.

No tratamento desses conflitos, três feixes de ações simultâneas, mas pouco conectadas da Sociedade Política e da Sociedade Civil tiveram lugar. A referência aqui é do papel do Governo do Acre e da Igreja Católica e dos Sindicatos de trabalhadores rurais. Parece óbvio que se os objetivos dessas três forças convergiam para a defesa e proteção dos segmentos populares recém deserdados elas tivessem concorrido para a criação de mecanismos de cooperação mais orgânicos. Não foi isso, todavia, o que aconteceu sistematicamente. N’alguns momentos dialogaram, mais como exceção que como regra. Apresentaram poucos sinais de hierarquia ou mesmo de cooperação explícita.

Será tratado hoje aqui o papel da Sociedade Civil nas estruturas ativas da Igreja Católica da Prelazia do Acre-Purus. Os Sindicatos de Trabalhadores Rurais ligados à CONTAG e o Governo Geraldo Mesquita ficarão para os próximos artigos. A Prelazia do Acre-Purus filiou-se sob o comando de Dom Moacyr Grechi ao movimento conhecido como Teologia da Libertação que desfrutou de grande prestígio criado na Igreja Católica Latino-americana. Dom Moacyr Grechi foi um dos mais importantes representantes dessa linha no Brasil, ombreando com nomes famosos como o de Dom Tomás Balduíno e de Dom Pedro Casaldáliga, presenças marcantes nas sagas das lutas da Amazônia.

Próximo de pensadores teológicos como os irmãos Leonardo e Clodovis Boff, que teorizaram a “ opção preferencial pelos pobres “, Dom Moacir fez chegar ao Acre bom número de padres e freiras e diversos leigos, inclusive estrangeiros, que receberam a missão de por para funcionar as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs – na defesa de comunidades pobres e excluídas. Grupos de Estudos, Cursos de Formação Teológica, Publicações de Periódicos, Produções Comunitárias Rurais e Ampliação da Ocupação no Ensino Formal foram instrumentos usados dentro de suas características específicas para a formação de quadros ativos na contestação do “ status quo “ e na proteção das levas de excluídos. É conveniente mencionar a proximidade com as fontes de conhecimento marxistas e a prática de uma pregação anticapitalista.

O núcleo de Padres e leigos católicos em Xapuri foi responsável direto sobre a educação e formação política de diversos líderes sindicais, inclusive de Chico Mendes.

Não havia ainda, à época, a atual pletora de confissões religiosas evangélicas, de modo que o cristianismo majoritário cingia-se ao catolicismo e igrejas evangélicas tradicionais. Por outro lado, é forçoso lembrar, também, que a linha de ação da Igreja Católica calçada na Teologia da Libertação não obteve expressão idêntica na Prelazia do Alto Juruá, considerada de corte “mais conservador”.

Dentre tantos leigos que atenderam o chamado de Dom Moacyr Grechi para acorrerem ao Acre encontravam-se os jornalistas Antônio Marmo e Sílvio Martinello, correspondente dos Jornais Estado de São Paulo e Jornal do Brasil, que acompanharam o cotidiano amiúde dos conflitos locais reportados em âmbito nacional. Posteriormente, Silvio Martinello juntou-se com Elson Martins da Silveira, correspondente da Folha de São Paulo, e alguns nomes locais e fundaram o jornal O Varadouro, muito expressivo na cobertura dos conflitos da época.

O Varadouro tinha o DNA da Prelazia do Acre Purus. Parte da Tendência Popular do PMDB e, especialmente, o PT, também.


João Correia é professor universitário e escreve no ac24horas todas as quintas-feiras.

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João Correia

Wanderley Dantas: um visionário?

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FOTO: O SERINGUEIRO - IMAGEM DA INTERNET

O tema versará sobre o desmatamento no Acre, para se chegar ao debate sobre a viabilidade do agronegócio proposto pelo Governo Gladson Cameli. Dois ou três pequenos artigos serão escritos no intuito de emoldurar a temática proposta. Sem contextualizá-lo, ficará trôpega e penosa sua compreensão. Faz-se necessário, portanto, uma apresentação sumaríssima e genérica de suas determinantes, que precisam ser entendidas, aqui, como simplificações imperiosas à apresentação do tema. Será sugerida uma bibliografia mínima aos que desejarem aprofundar-se no assunto.

Pois bem, meio século atrás, no início dos 70 do século XX, o Acre experimentou mudança radical em sua base produtiva. O extrativismo da borracha (em dificuldades) castanha e demais produtos florestais foi desafiado pela pecuária, uma nova atividade que exigia a remoção completa da floresta para implantar-se e expandir-se. Com raros campos naturais, o Acre era quase totalmente coberto por matas virgens; poucas capoeiras, pequenas áreas urbanas e diminutas clareiras de lavouras de subsistência pouco feriam o manto verde e espalhado da hileia. A maioria dos acreanos era abastecida por carne bovina proveniente da vizinha Bolívia. Também era bastante comum o consumo da carne de animais silvestres caçados nas matas circundantes dos centros urbanos.

No Brasil, vivia-se o Milagre Brasileiro (crescimento econômico anual acima de 11% de 1968/73) sob comando do ditador Emílio Médici que indicara o professor Francisco Wanderley Dantas para governar o Acre.

Wandeley Dantas empreendeu no Sudeste e Sul do Brasil uma ostensiva campanha de atração de investidores para aquisição das terras acreanas. O mote propagandístico foi o de que o Acre era um “ Nordeste sem seca e um Paraná sem geadas “. Havia também referências da proximidade geográfica do Acre com o Oceano Pacífico e daí a viabilidade para os mercados asiáticos. Com efeito, o sucesso da campanha foi inegável. Em curtíssimo período de tempo uma vaga de compradores de terras, pecuaristas, especuladores, grileiros e outras personagens que acompanham as frentes de expansão pioneiras mudaram a face da propriedade das terras acreanas.

Diferentemente da maior parte da Amazônia, o essencial das terras acreanas restava ocupado desde o final do século XIX, com a corrida da borracha, ocupação essa renovada durante a Segunda Guerra Mundial, através dos Soldados da Borracha.

A criação do novo mercado de terras – com vistas à utilização de terras nuas para a pecuária – exigiu a remoção dos ocupantes tradicionais das áreas transacionadas. Parte dessa remoção foi feita legalmente mediante negociações e indenizações e outra parte foi efetuada criminosamente com o uso da coação e da violência privada. Os conflitos agrários – incomuns nos empreendimentos seringalistas, com hordas de pessoas tangidas de seus “ habitats “ – se multiplicaram.

Aqui impõe-se uma questão de entendimento: correntes de pensamento ideologizadas aos extremos levaram a um impasse cognitivo desses fatos. Os de extrema esquerda militante satanizam Wanderley Dantas como ente malvado e pervertido, responsável pelo êxodo dos seringueiros, enquanto os de extrema direita, do Instituto Liberal do Acre, por exemplo, o santificam como ícone moderno do liberalismo, interrompido pela nefasta ação da esquerda católica. O fato é o excessivo calor das narrativas ideológicas obstruindo a visão de que a expulsão de posseiros por ação de grileiros, de que as famigeradas “ limpezas de áreas “ mediante o uso da violência foi um fato concreto e objetivo; de que não há como negar-lhes a existência; de que tenha sido consequência indesejada e imprevista decorrente da incapacidade de previsão das ações desencadeadas pelo Governo Dantas, no objetivo de modernizar a economia acreana.

O período foi curto, mas muito intenso, e marca uma das principais diferenças com o ocorrido na vizinha Rondônia. Aqui a apropriação de terras foi altamente concentradora passando-se vastas áreas de seringais para novas mãos e novos usos, mas mantendo-se um perfil distributivo altamente regressivo enquanto lá a apropriação de terras foi bem democrática, distribuindo-se terras devolutas atendendo a um expressivo fluxo imigratório do Sudeste e Sul do Brasil para o então território. Não é descabido dizer-se que em Rondônia foi praticado o mais bem sucedido processo de reforma agrária da Ditadura Militar, seguindo seu principal código, criado para o caso, o Estatuto da Terra. Mas essas são outras questões, citadas aqui “en passant“.

Voltando-se ao Acre, impende reconhecer que o período Dantas chega a ser bem escrutinado. Dentre tantos estudiosos, cabe recomendar os textos das dissertações de mestrado do Professor Adalberto Ferreira da Silva: Ocupação Recente da Terras do Acre (Transferência de capitais e luta pela terra) e de Luís Antônio Pinto de Oliveira: O Sertanejo, o Brabo e o Posseiro (Os cem anos de andanças da população acreana). Também é bastante útil para conhecimento sobre a socioeconomia acreana, no período mencionado, o relatório elaborado pelo CEDEPLAR, órgão vinculado à Universidade Federal de Minas Gerais.

Traçado em linhas genéricas o esboço das determinantes que repousam na espetacular ação do Governo Wanderley Dantas, serão abordadas no próximo artigo a reação e a confrontação da sociedade acreana aos resultados alcançados e expostos.


João Correia escreve todas às quintas-feiras no ac24horas. 

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