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Camaradagem Onerosa

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O Governo Gladson Cameli tem sido parceiro de seu antecessor em diferentes aspectos. A prática o tem demonstrado à saciedade, neste exíguo tempo de existência. Talvez, de todos, o mais importante e evidente tenha sido a ordem que o governador eleito deu à sua base de sustentação na Aleac que aprovasse todas as contas da gestão do petista, sem questioná-las. Literalmente, na calada da noite ou no sereno da madrugada, as contas – todas, sem exceção de nenhuma – foram aprovadas sem um pio de discussão sequer, por estranha unanimidade. A imprensa não deu ao caso a atenção requerida pela gravidade do feito, por tamanha opacidade, e os populares deram de ombros para tema excessivamente complexo para dele darem conta.

O certo é que através de um “arcana imperii” ( segredo de poder ) Gladson Cameli deu um salvo-conduto a Tião Viana; um presente dos céus ou de um bom irmão e amigo – já é conhecido o apreço comovente que o jovem governador no poder dispensa aos amigos. Contudo, com o gesto, na prática, sua gestão renunciou a todas e quaisquer exposições e críticas concernentes ao espólio dos ativos da herança recebida. Rigorosamente, ninguém do Governo Gladson Cameli possui legitimidade ativa para cobrar da gestão de Tião Viana. Basta um seguidor vianista exibir as circunstâncias da aprovação unânime das contas pela Aleac para deitar por terra a veleidade presumida.

Esta decisão, todavia, elide a existência de herança incômoda e tóxica legada pelo Governo de Tião Viana a seu sucessor? Receia-se de que não. Não se elimina a realidade apenas apagando-se os contornos de uma fotografia, por exemplo, como fizeram os stalinistas do socialismo realmente existente ou, melhor dizendo, do socialismo realmente policial, na antiga União Soviética.

Os Governos de Tião Viana e Gladson Cameli possuem laços fortes, coincidem em muitos compromissos, mas têm, cada um deles, sua própria quota parte de singularidade, sua própria identidade. A simbiose entre ambos pode ser melhor explicada pela teoria dos conjuntos formulada pelo matemático russo, Georg Cantor. Em seu conceito de intercessão, há elementos comuns entre os dois governos sob comento, mas há, também, elementos que igualmente os diferenciam. Subsistirá algo mais ou menos assim: Governo Tião Viana (a, b, c, d, e, f ); Governo Gladson Cameli ( c, d, e, f, g, h ). Elementos de área comum: ( c, d, e, f ); áreas específicas: GTV (a b), GGC (g h). Isso acaba apontando para a expressão popular de amizade colorida, de casamento aberto, eivado de hormônios abrasadores e descontrolados.

Por conseguinte, é inútil dar-se curso à ideia tentadora, mas pueril, de que o atual governo não tem laços com o anterior; de que seus passivos não coincidem, não dialogam, não se comunicam; de que se começa tudo do zero, de que se escreve a partir de uma página em branco. Por isso, n’alguns meios, o Governo Gladson Cameli é tratado como um governo de transição para uma futura oposição; essa, sim, neste olhar utópico, um desvencilhar-se definitivo do ideário da Frente Popular do Acre, que insiste em sobreviver, ou seja, adia-se para um futuro distante e incerto as favas que se tinham por contadas, por líquidas e certas.

Bom, oráculo à parte, é de se dizer, no caso concreto, que os processos de diferenciação e contestação feitos pelo atual Governo a seu predecessor serão sempre parciais, meia boca, adjetivos, espumantes, cosméticos. Os mergulhos profundos à raiz das questões serão evitados para assegurar o desvio de rupturas indesejadas.

As dificuldades legadas não são apenas abstratas e metafisicas, mas são tangíveis, também; elas misturam pobreza, indicadores sócio-econômicos precários, economia murchada, com passivos reais e concretos e exigentes de honra imediata. Nestes últimos, encontram-se as dívidas com fornecedores, empresas terceirizadas, contratos não liquidados, além da parcela remanescente do décimo terceiro e das indenizações trabalhistas, dentre muitos e muitos outros. Essas são questões do mundo dos vivos, do pulsar do dia a dia, que afetam milhares de acreanos e que clamam por soluções que não podem esperar indefinidamente. Na há como ignorá-las e de pouco adianta fingir-se de que elas inexistem porque foram contraídas antes de primeiro de janeiro de 2019.

De resto, alguns dos passivos que o Governo Tião Viana ofereceu são relevantes para o viver de muitos e recomendam redobrada atenção. Por exemplo: proclama-se que a maior parte das empresas acreanas de construção civil está falida, por inadimplemento sistemático e bizarro do próprio Governo do Acre; de que a insolvência, dificuldades e a falência atingiram até empresas antes tidas como sólidas e há muito estabelecidas.

É conhecida mundo afora a vitalidade da construção civil para a geração rápida e imediata de empregos. Se isso dá-se algures, dá-se também aqui; dela dependem a sobrevivência de legiões de acreanos, hoje sofrendo o hálito pestilento do desemprego e da desesperança.

“ Quem casa com a viúva tem que levar junto os filhos “; esta frase é um ditado popular e foi recentemente proferida por Júlio Caçambeiro, sobre o governo Gladson Cameli. Júlio é líder dos caçambeiros e se notabilizou por tentar receber do Governo Tião Viana ao longo de vários anos uma dívida em torno de oito milhões de reais. A dívida foi contraída junto a centenas de caçambeiros e, desonrada, foi repassada ao governo atual. Chegou-se a esse lastimável patamar; caçambeiros não compõem a elite privilegiada da economia nem da sociedade do Acre. São criaturas simples, em muitos casos, carregadas de humildade. Nesse caso patético, os mais antigos talvez dissessem que o Governo Tião Viana “ teve coragem de mamar em onça. “ Forjou-se um ambiente desolador, com nuvens carregadas no horizonte.

O certo é que as economias alimentam-se das expectativas dos seus agentes; por seus atos, um quadro recessivo pode transformar-se num abrir e fechar de olhos em quadro de esperançosa euforia ou, inversamente, num quadro depressivo. O fato inolvidável é o de que as pessoas, as famílias reais, vão junto, formam a moldura desses quadros alternativos. E, desgraçadamente, não há virtude alguma no aumento da miséria das pessoas. Os planos sonhados são cancelados, aumentam as doenças, a infelicidade, a prostituição, o uso de drogas, a fome, a degradação individual, a desagregação familiar, a violência etc. Essas são suas resultantes, suas consequências inevitáveis. E é isso o que boa parte dos acreanos vive nesse início de 2019.

Por derradeiro, deve-se salientar que o desalento torna-se torrencial ao se verificar que o ambiente recessivo/depressivo da economia acreana afasta a classe player, de vanguarda, única capaz de mudá-lo, através do investimentos, que é a categoria dos homens de negócio. O comando passa a ser determinado exclusivamente pelo cálculo econômico empresarial, obediente a critérios estritos de objetividade. Quem se disporá a investir numa economia que cultiva a miséria e o pauperismo? Os que estão na lida adiam as decisões de investimentos e os que não vêem futuro para suas inversões cancelam-nas e vão cantar em outras freguesias mais promissoras.

João Correia escreve em ac24horas todas às quintas-feiras.

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João Correia

Estadista?

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“Eu sempre gostei muito de dizer tudo o que me vem à boca “. (Erasmo de Roterdam, Elogio da Loucura ).

Dia 11 de maio próximo passado, o Governador Gladson Cameli prestou uma entrevista à jornalista Thais Farias, do site ac24horas, que parece ter sido exclusiva. A suposição de exclusividade decorre do fato de que se fôra coletiva certamente teria repercutido na pena de algum outro jornalista, o que, parece, não ocorreu; há de se pensar, pela gravidade das decisões tomadas e das leituras da realidade feitas por Sua Excelência.

Na referida entrevista, o Senhor Governador, precavendo- se de comentários desairosos, comunica que “ de agora até o mês de julho vai ‘ viver ‘ fazendo ponte aérea entre o Acre e Brasília “. (…) “ Até julho vou passar poucos dias no Acre. Vou passar mais tempo em Brasília porque não quero deixar ‘ passar ‘ os recursos garantidos “, disse. E fez uma confissão bem expressiva: “ Enquanto não sair a Reforma da Previdência, vou estar constantemente fazendo essa ponte aérea para que eu possa governar “. E aduz, adentrando um tema recorrente em suas últimas falas: “se a Reforma da Previdência não ocorrer, o Acre irá decretar estado de calamidade financeira”.

Sua Excelência, o Governador Gladson Cameli, parece estar muito impressionado com a perspectiva de panaceia que pode decorrer da aprovação da PEC da Previdência, tanto que vaticinou para a jornalista Thais Farias: “ A Reforma vai aquecer nossa economia. O pacto federativo vai dar sustentação para o estado e aos municípios ( sic ) “. No entanto, incontido, com a magia ao alcance da voz, e o brilho da varinha de condão nos olhos, não deixou por menos e pespegou a profecia: “ o país vai dormir de um jeito e acordar de outro, com condições de virar uma Europa “. Por certo, referiu-se à Europa desenvolvida, da União Europeia, do Velho Mundo, berço da Civilização Ocidental.

O que pode-se dizer acerca da visão um tanto cor-de-rosa e utópica do Governador Gladson Cameli

a) de que a apresentação da Reforma da Previdência à Câmara Federal é o principal acerto consistente do destrambelhado Governo de Jair Bolsonaro. A recusa ou o desprezo, no entanto, de organizar uma interlocução política competente na Câmara Federal consumiu dias e meses preciosíssimos que testemunharam o bloqueio da economia do Brasil;

b) de que as expectativas iniciais de crescimento econômico (2,5% em janeiro) foram paulatinamente revisadas para baixo e hoje estão na casa de 1,1%. O primeiro trimestre do ano apresentou crescimento negativo (- 0,68 em relação ao trimestre anterior) e, pior, corre-se o risco do crescimento econômico do segundo trimestre também ser negativo, o que atiraria a economia brasileira tecnicamente em recessão;

c) poucas são as indicações realistas da Reforma da Previdência ser votada e aprovada até o mês de julho do ano corrente. A inexperiência atrapalhada dos corifeus governamentais na Câmara Federal, os movimentos poderosos das corporações, perdedoras de privilégios com a proposta, os movimentos obstrutivos, procrastinatórios e legítimos -regimentalmente falando – dos parlamentares de oposição, e a satanização da política e dos políticos em curso entronizada pelo lavajatismo podem levar a decisão sobre a Reforma da Previdência para o trimestre final do ano. É conveniente lembrar, também, a necessidade da votação em dois turnos em ambas as Casas Legislativas;

d) o impacto direto da Reforma da Previdência, “ lato sensu “, não pode dar-se na vibração de uma varinha de condão. Os agentes econômicos estão esgarçados, angustiados e desestimulados, especialmente os players. Não há milagre da multiplicação dos pães à vista, não. A retração nos investimentos (adiamento e cancelamento), o abusivo endividamento das famílias e empresas e a crise fiscal de norte a sul e de leste oeste dos Estados membros e da União não autorizam muito entusiasmo. A indústria da Construção Civil, normalmente talhada para gerar empregos rápidos, diretos e profusos em qualquer lugar do mundo, foi aniquilada pelo lavajatismo e pela severidade da recessão e o que tem a exibir são dezenas de milhares de obras paralisadas, carcomidas pela inclemência dos elementos da natureza, e quatorze milhões de desempregados no polo da angústia e do sofrimento dos brasileiros;

e) por conseguinte, o ano de 2019 poderá não ser alvissareiro para Estados da rabeira da economia brasileira, feito o Acre. As opções de política externa feitas pela Chancelaria do Governo Bolsonaro, de par com a desaceleração da economia mundial, também não autorizam muita euforia;

f) é de se suspeitar, por derradeiro, da demanda derivada que liga a aprovação da Reforma da Previdência no Brasil ao Acre. Provavelmente, o Governo Gladson Cameli tenha que munir-se de muita coragem, altivez e desprendimento para adaptá-la ao Instituto de Previdência do Acre. Se o fizer, Gladson Cameli terá sido um estadista.

g) a Reforma da Previdência é condição necessária, mas ainda insuficiente, para a retomada do crescimento no ciclo de conjuntura de nossa machucada economia. Quanto a tornar-se uma Europa, o charme do Morro do Marrosa bem que poderia ser apadrinhado pela elegância do Quartier Latin, da bela Paris.


João Correira é professor universitário e escreve em ac24horas todas às quinta-feiras.

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João Correia

Jogo de Dardos

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De dois em dois anos, os brasileiros vão às urnas, em eleições diferentes, mas conexas. As últimas foram estaduais e nacional e as próximas serão locais, municipais, pelos quase seis mil municípios Brasil afora.

Há muitas críticas por periodicidade tão curta em eleições tão caras e há também os que advogam virtudes em se votar com frequência amiúde.

Na vida ultra politizada do Acre, as conversas preliminares para as eleições de 2020 já começaram em diversos arraiais; e trazem consigo ingredientes desconhecidos para as novas composições.

O principal balizador dos arranjos políticos será a proibição das coligações proporcionais, que reduzirá drasticamente a importância dos pequenos partidos nas próximas eleições. Em contrapartida, os partidos maiores, que superaram as cláusulas de barreira, terão que demonstrar capacidade aglutinadora para continuar vivos na cena política, ou seja, os pequenos tendem a desaparecer e os grandes terão destino idêntico se não crescerem. Todos serão afetados. Alguns analistas calculam que, depois das eleições de 2020, o número de partidos oscilará em torno de 10 das 35 agremiações atualmente existentes.

Essa exigência da legislação fará toda a diferença nas próximas eleições; ela forçará os partidos a desejarem ter candidaturas majoritárias próprias em todos os municípios, sob pena de desaparecerem. Quem desejará sumir do mapa e do palco político? Em bom juízo, ninguém. Daí todos calcularem freneticamente suas próprias existências no porvir.

Tome-se, por exemplo, a coligação vencedora das eleições de 2018, no Acre. Pelo menos 5 partidos deveriam ter candidaturas próprias, para subsistirem. Assim ocorrerá com MDB, PP, PSDB, DEM e PSD. Podem até aliar-se nas chapas majoritárias, mas terão que ter chapas próprias para abrigar seus proporcionais.

Qual o imperativo último de se ter candidatura própria? É que ela alavancará a formação das chapas proporcionais ao exibir expectativas de poder. E tal poderá dar-se tanto para os partidos dos titulares como dos vices. Mas pararia por aí, em condições normais. É lógico que o uso da máquina pública facilitará enormemente os atuais detentores do poder, que certamente cooptarão parcela significativa dos candidatos proporcionais dos concorrentes adversários.

E a posse das máquinas públicas estará dividida nas próximas eleições. Do ponto de vista da Prefeitura de Rio Branco, os remanescentes da Frente Popular serão a situação, enquanto os partidos que elegeram o Governo Estadual figurarão como oposição. Pela lógica, o confronto dar-se-á aí, diminuindo-se as chances de candidaturas avulsas de pequenos partidos ou de aglomerados seus.

O escrutínio do futuro é tarefa para profetas, magos, astrólogos, xamãs, oráculos, gurus,
videntes etc. São, por conseguinte, inteiramente temerárias opiniões que ultrapassem a condição de conjecturas frágeis desenhando contornos de cenários possíveis.

O desconcertante aos atrevidos desenhistas de cenários políticos é a dificuldade em se focar nos processos, acompanhando-os meticulosamente, e ter que se tomar os resultados finais como únicos dados. Não é raro resultados finais triunfarem por quase nada, por simples detalhes nas forças em pugna. É um jogo de dardos em que os concorrentes atiram os dardos uns nos outros. As miras são certeiras, os lançamentos são precisos, mas os alvos são móveis, mobilíssimos, alguns até mimetizados.

De qualquer sorte, aponta-se, sob as chuvas e trovoadas da realidade, a formação provável de algumas tendências que poderão encarnar-se na realidade dos cabeças de chapa majoritários, em 2020: a) dos remanescentes da Frente Popular, o Partido dos Trabalhadores apresentará candidatura própria. Consideram que dirigir a PMRB com a própria face será um recomeço estratégico para retomada do poder local. Sabem mais que historiadores de que o sucesso da primeira eleição de Lula deve muito ao PT do Acre e ao orçamento do Estado, especialmente da BR-364. Têm nomes competitivos, onde se salienta o do professor Raimundo Angelim, seguido do de Jorge Viana. Terão, também, que resolver a dificuldade do direito à candidatura natural da Prefeita Socorro Neri; b) o Governador Gladson Cameli escolheu e lançou o nome do Vice Governador, Major Rocha, do PSDB, a Prefeito de Rio Branco, o qual teria aceitado, de imediato. Se se mantiver essa escolha política, aliás de muita argúcia, dar-se-á um freio de arrumação nas borbulhantes expectativas de atores partidários do espectro do Governo de adentrar o centro do palco dessa disputa política.

Feito o PT, é intuída como normativa a decisão do PSDB em lançar candidaturas em todos os municípios acreanos. O Governo do Estado possui instrumentos convincentes e persuasivos para dirigir sua forças internas em apoio à sua candidatura única, não podendo livrar-se e legar-lhe, em contraponto, o seu próprio desgaste que não dá para se saber como estará no ano vindouro. Nesse cenário específico, o Governador terá excluído o PP, o DEM, o PSD e o MDB como cabeças de chapa; c) o MDB, por seu turno, tenta construir uma alternativa para colocar-se como terceira via. Um “ tertius”, que representaria os que não se identificam organicamente nem com o PT e nem com o Governo Gladson Cameli. O nome em formatação é o do Deputado Estadual Roberto Duarte, que tem desempenhado na Assembléia Legislativa uma posição de independência, recusando alinhamentos automáticos ao Governo Gladson é à oposição de quadros oriundos da Frente Popular.

É lógico e óbvio, no entanto, que a posição de terceira via – expressa pelo MDB de Roberto Duarte – será desafiada por outras forças que têm potencial para formar-se e objetivem ocupar essa posição. É de praxe, ainda, emoldurando o processo democrático, a apresentação de forças políticas debutando na disputa próxima.

Todas essas probabilidades sugeridas podem mudar como as nuvens com o vento, bastando para isso que uma das personagens comporte-se de forma diferente da prevista aqui.

O que pode afiançar-se com algum grau de certeza é de que as eleições de 2020 serão o vestíbulo das definições políticas de 2022.

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