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Os labirintos do corpo

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Depois de terem passado o dia suplicando trocados e contribuições nas esquinas do centro de Rio Branco, Gracy, Michelly, Amanda e Carla, voltaram cada uma para suas respectivas casas. Precisavam de um asseio urgente! Estavam meladas, pintadas, falsamente tatuadas e tudo o mais que podia ser descarregado nos corpos das calouras do curso de Ciência Sociais da UFAC. Tinham combinado que, à noite, reuniriam toda a turma do Pré-Enem para uma grande festa, uma grande celebração que traduzisse em euforia o ano inteiro dedicado aos estudos e às privações.

O acontecimento seria realizado na casa onde morara Carla, haja vista que dois motivos foram suficientemente fortes para que o local fosse o imposto, quer dizer, escolhido por eles e elas: era grande, e os pais dela tinham viajado para o Nordeste, aliviados pelo fato de que a filha, agora, tomaria rumo.

Iniciaram a festa numa mediocridade de assunto terrível! Só falavam das questões da prova, dos erros e acertos, dos conteúdos e das coisas que não tiveram tempo de estudar. Com o avançar do álcool, se soltaram mais; sendo que os rapazes presentes, desde cedo, insistiam para que o tema fosse qualquer coisa menos bobagens correlatas à corrida que eles tinham se sagrado vencedores.

Era quase meia noite, todos avançavam nas bebidas, nos sorrisos, nas coisas proibidas, nos pensamentos mais turvos, determinados e nos desejos naturais que pretendiam se soltar. Reprimidos por um ano de dedicação e empenho, as moças então cederam aos cotejos dos rapazes, permitiram-se como mulher e abriram portas de vontades que só os olhos eram testemunhas.

À Carla, por mais que o álcool confundisse suas certezas e pudores, por mais que rapazes bonitos desfilassem na sua retina, com conversas agradáveis e impressionantes, só lhe interessavam quatro pessoas: Sérgio, Lucas, Thiago e uma outra que caminhava suave por suas ideias e planos, mas que não se podia do poderei que poderia possa um dia poder.

De madrugada, na inventividade que é típica dos homens, deram por bem apagar as luzes do apartamento, deixando apenas a fraca luminosidade do aparelho de som definir qualquer imagem. O resto era dança, o resto era contato, o resto era beijo, o resto era o que não se podia mais esperar. Encostada na parede da cozinha, Carla sentia o mundo rodar alegremente. Seus olhos flutuavam em arco-íris brilhantes e via no céu do teto enormes fadas e pássaros cantando imponentemente que aquela era sua música, aquele era seu ritmo e por isso, talvez por isso, precisava dançar.

No meio de tanta euforia, Carla foi convidada a calar, a sentir a experimentar sensações boas e agradáveis. Levemente uma mão lhe tocou, subiu dos seus seios em diagonal até a parte superior do pescoço, descendo lentamente pelos ombros até seu último dedo. Aí ficou, e prendendo-o, como se fizesse um nó, puxou o corpo de Carla para um beijo quente, terno e com salivas doces que as línguas não deixavam escorrer dos lábios.

Beijaram-se, tocaram-se, experimentaram-se; e tiveram explosões de coisas que transpareciam em sussurros incompreensíveis, gemidos lancinantes, respirações sufocantes e abraços desesperados. Nada mais a dizer, sob o risco de ousar expressar, errado, o que somente as duas pessoas ali sentiam.

Na manhã seguinte, no quarto dos pais, acordaram Carla, Sérgio, Lucas e Thiago. Um fino lençol a cobria , não sabia muito bem o que tinha acontecido. Apesar da forte dor na cabeça, ela teve tempo de se envergonhar do cenário; e vestir-se rapidamente em trajes mais afetos a sua conduta de moça descente.

Numa visão panorâmica, Carla viu que os outros se espalhavam pela sala, ainda dormindo o sono pesado que os deuses etílicos proporcionaram. Na área da frente, perto de algumas plantas, restava solitária uma testemunha da quão louca tinha sido à noite. Michelly, Semidespida, e com um pequeno jarro ornamental como microfone, cantava canções do Cold Play, entoando em inglês sujo a bela frase que dizia: “I was scared, I was scared, Tired and under prepared, But I’ll wait for it”.

Carla teve todo o curso para saber quem tinha lhe beijado daquela forma, quem tinha lhe tocado com aquela habilidade. Namorou quase todos os rapazes da festa de comemoração, mas não achou nada parecido com aquele beijo, com aquela mordida, com aquele compasso, com aquela marcha e maneira de fazer carinho.

Tudo em vão, nada se parecia, nada chegava perto do que tinha sentido naquela noite embriagada. Não que não fosse bom o que viveu, mas o que experimentava com seus namoros, na busca pela pessoa daquele dia, não encontrou nem se quer algo pouco parecido.

Foi somente na festa de conclusão do curso, também na casa dela, também com os amigos da faculdade, que Carla pôde, em fim, descobrir quem tinha sido o beijo que provou e que deu quatro anos antes. Na mesma cozinha, com as luzes apagadas, perdida pelo álcool que lhe visitava a mente, Carla sentiu o toque, aquele toque, inesquecível, com a temperatura certa que o corpo dela tinha gravado na pele.

Sem tanta passividade de tempos atrás, a moça postou-se combativa e atrevida. Tomou a outra mão que lhe percorria, cravou seus dedos no cabelo e nas costas de quem lhe beijava a boca e, reconhecendo matérias de sua intimidade suspirou e disse: meu Deus, que bom, eu sempre te amei.

Amanheceram as duas! Sorrindo no jardim, declarando amor recíproco. A canção não tinha mais uma só voz:
“I was scared, I was scared, Tired and under prepared, But I’ll wait for it”.

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