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Moisés Diniz escreve – Quando o lucro perverte o direito

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“O ano será difícil mas agora o caminho é correto”. Acredite se quiser, mas, esse é o título da capa de VEJA desta semana. A matéria da revista mais conservadora do país começa assim: “Os desafios do 2º mandato de Dilma são grandes. Na economia, o primeiro passo foi no bom caminho com a nomeação de Joaquim Levy para ministro da Fazenda”.

Com esse título, poderíamos viajar filosoficamente pelo planeta, através de centenas de laudas. Mas, vou deter-me, apenas, em três exemplos, para demonstrar que a velha e nova burguesia mundial ‘não fica sem almoçar’ por causa de direitos humanos, falta de liberdade ou de democracia no planeta.

Para os capitalistas ‘essa estória’ de defesa da liberdade de imprensa ou de direitos humanos sempre foi uma grande falácia. Alguns incautos é que acreditam e ainda reproduzem em seus blogs, facebook e retuítam, como se estivessem participando da última luta revolucionária do planeta.

Começo o exemplo por Cuba e Venezuela. Toda a gritaria da elite mundial não tem nada a ver com direitos humanos, liberdade de imprensa ou democracia. Essas são bandeiras do povo, da intelectualidade, da juventude, de parte substancial de nossa classe média, em qualquer lugar do planeta.

O que exaspera os capitalistas é a questão econômica em Cuba e na Venezuela. É que, lá, o capital está controlado (mais em Cuba e menos na Venezuela) pelo Estado. O lucro não está todo solto. Há uma prisão quase perpétua para o fluxo de capital, especialmente o volátil e invisível, aquele que fatura bilhões de dólares de lucro, sem plantar um pé de arroz ou produzir um parafuso.

Aqui uma pausa para um inconveniente post scriptum. Os dois modelos, aqui relatados, não me apaixonam ao ponto de não perceber que o primeiro travou e o segundo começou enviesado. Acredito que Cuba já devia ter modelos mais abertos de democracia socialista e formas intermediárias mais fortes de participação do capital produtivo.

Quanto à Venezuela, eu nunca fui amante visionário de um modelo que, no desejo sincero de repartir as suas riquezas minerais, comete o equívoco de entregar os sonhos de sua classe média nas mãos dos vampiros do grande capital.

O terceiro exemplo é a China, aonde a democracia é aquela que decide o Partido Comunista, único e poderoso, sem nenhuma fresta por onde possa respirar o contraditório. Há mais ausência de democracia na China do que na Venezuela, infinitamente, menos direitos humanos lá do que em Cuba.

Todavia, os grandes capitalistas do planeta, seus políticos, seus jornalistas e seus zumbis nas redes sociais não dizem um pio, não aprovam resoluções na ONU contra os chineses, nem impõem embargos e, vergonhosamente, estão todos lá, explorando a gigantesca e barata mão de obra chinesa.

Até o atrapalhado e indefensável regime da Coréia do Norte, se abrir suas portas para o capital internacional, passará a fazer parte do clube do bilhão. E a Sony gravará nova ‘Entrevista’, aonde Kim Jong-um deixará de ser caricato e se sentará com os grandes magnatas do planeta.

E assim será sempre aonde um país abrir as portas para o capital financeiro, especialmente o especulativo e internacional, mesmo que a sua constituição seja escrita por generais e sua democracia custe menos do que um par de botas. Não precisamos nem olhar para o Oriente Médio e suas monarquias de sangue e de eterna noite para os direitos humanos, para a democracia, a liberdade de imprensa e para a beleza das mulheres sob suas burcas e suas dores.

Como criticar VEJA? Ela apenas reflete o que pensa a velha e nova burguesia brasileira e mundial. Basta Dilma permitir ampliar o direito ao lucro ao custo dos trabalhadores, autorizando Joaquim Levy a esquartejar o orçamento público com o objetivo de guardar a carne boa para pagar juros da dívida e a carne de terceira para os trabalhadores.

Cabe a nós, seja de esquerda ou de direita (porque há gente de direita honesta e comprometida com o seu país, com a democracia e as liberdades civis), governistas ou oposicionistas, vigiar por uma nação que seja capaz de crescer economicamente, sem destroçar os frágeis e incompletos direitos dos que menos podem, menos estudam, menos comem.

O Brasil só não pode é deixar que o Joaquim Levy transforme os trilhos das estradas de ferro em moedas para pagar a dívida.

Moisés Diniz é membro da Academia Acreana de Letras e autor do livro O Santo de Deus

 

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