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Lençóis dos Noivos

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Sujeito homem, rapaz direito, formado nas artes dos estudos e convencido de que era o melhor para a jovem moça chamada Luana.

O namoro já ia pelos seus oito meses, quando aceitou definitivamente o convite dela para um almoço e um fim de tarde com a família: forma mais aguda de reafirmar os propósitos e provar que era mesmo um rapaz direito.

Frederico chegou lá pelas onze e alguma coisa, dispensou o carro e a mãe, e pediu que ela estivesse lá às oito, pois era o tempo que ele teria finalizado o debate sobre a derrota ou a vitória do Flamengo com o futuro sogro vascaíno.

Naquele domingo quente, o manjar foi, consideravelmente, pesado. Tinha de tudo, da carne do porco ao frito frango franzino e fraterno. Saladas das mais variadas cores, acompanhadas de maioneses que faziam das louças de vidro um belíssimo campo de esquiar.

Uma conversa gostosa foi a culpada do destempero de Fred com o garfo. Comeu, comeu e comeu. Parecia mesmo que nascera para a comida. Era como a medida exata da ânsia dos famintos bárbaros mongóis que chegavam a Europa Ocidental em cavalos.

Sentado no sofá, na conversa pós mesa, o namorado de Luana começou a se espremer todo, buscando as melhores posições para que não saísse de seu corpo os primeiros peidos, informadores do que mais tarde necessitava sair.

O rapaz começava a dar sinais de incômodo, em decorrência da pressão biológica de suas entranhas. Pensou em um milhão de saídas, como, ir embora, dizer que deixou o leite fervendo, a mãe na forca, ou o ferro ligado em cima da camisa que Luana tinha lhe dado de presente.

Não teve jeito! Precisava urgente de um sanitário, uma privada, um cagador, pau da gata ou qualquer outro nome que recebesse, nesse imenso Brasil, o local onde prestamos conta do que a boca faz.

Num piscar de olhos reluzentes, num toque de mestre da alquimia alemã, teve um plano. Ora, se o dia se mostrava quente por demais, uma cópia miúda do inferno, um pedaço do quarto do diabo, nada mais natural que ele reclamasse calor e aceitasse o convite de um bom banho.

Lá, com a toalha dependurada, com o chuveiro jogando água pra ninguém, ele poderia disfarçar sua doce e urgente cagada. Sairia limpo e triunfal, vencedor de seu problema mais profundo.

Mas o sinistro se mostrou maior!

Após a primeira descarga, confiante de que o barulho da descarga não tinha sido ouvido, simulou uma esfregação no corpo, como se fosse, naquele momento o homem mais sujo do mundo, um garimpeiro recém chegado de Serra Pelada. Esperou o vaso encher para que pudesse se despedir daquela enorme quantidade de coisas que ele se assustava em olhar.

A segunda descarga também não surtiu efeito, o desnecessário continuava ali, bailando no compasso da fraca onda das águas que não estavam ajudando.

Iniciava uma grande angústia! Nem a terceira, nem a quarta conseguiam varrer da face da terra suas excreções poderosas que, a seus olhos, ganhavam mais volumem a cada descarga.

Não sabia muito que fazer naquela situação. O banheiro não tinha se quer um balde pra que pudesse tentar alguma outra alternativa. Apenas uma coisa estava clara: Se continuasse com aquilo, poderia, talvez, acabar as águas do Nilo, haja vista que ele em fim tinha percebido que o vaso estava maliciosamente entupido.

E agora Frederico? O que fazer numa hora dessas? Gritar? Tocar fogo na casa? Desmaiar e só acordar no além? Antes mesmo que pudesse continuar com as possíveis soluções, ouviu uma voz suave e calma alertando-lhe tardiamente, em um eufemismo atrasado, de que o sanitário apresentava problemas.

Saiu com os olhos arregalados do banheiro, sem jeito e imaginando que todos lhe condenavam pelo ato realizado e não finalizado. Sentou-se longe da namorada, postou-se como vigia e, se pudesse, pediria que treze operários de uma madeireira interditassem o local.

Uma eternidade se passou até sua mãe lhe tirar daquele sufoco. Por toda a tarde, ninguém teve coragem de adentrar aquele recinto. Uma situação difícil pairou sobre a cabeça do rapaz. As últimas palavras antes do término do seu namoro com Luana foi se tinham consertado o banheiro. Precisava saber disso. Por quê? Ninguém fazia a menor ideia.

Por Francisco Rodrigues Pedrosa      [email protected]

 

 

 

 

 

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