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Caverna dos Patriarcas

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Seis da tarde! Acabávamos de chegar a Santa Cruz de La Sierra. Minha irmã e eu estávamos aliviados com o fim da viagem. Durante a ida para Brasileia um taxista bem sensível e oportuno nos tinha dito que a empresa aérea que contratamos era a que mais sofria com acidentes aéreos no mundo.

Não sei se era exagero, mas não nos interessou saber disso, pois as passagens já estavam em mãos. Íamos estudar lá, e viagem como essa faríamos pelos próximos seis anos. Bastava apenas esperar que o sujeito que gargalhou, quando nos disse isso, estivesse equivocado.

No saguão do aeroporto, em Santa Cruz de La Sierra, paramos para comprar alguma coisa, antes que nossa outra irmã pudesse chegar para nos levar ao endereço pretendido. Aviões parados com destino a Miami e Europa davam um tom de força àquele belo centro. Senti-me bem.

Para não me angustiar com a espera, segui para um dessas bonitas lojas de conveniências que existem no aeroporto, cuja principal característica é abusar dos preços. No fundo, elas sabem que cobram excessivamente caro, porque reinam soberanas nesse tipo de espaço.

Sem saber falar espanhol, solicitei algo para comer à moça da lanchonete. Como era de se esperar, ela não compreendeu nada do que eu esbocei.

Treinada para esse tipo de situação, a funcionária ria sem jeito, olhando para os lados, como que buscasse alguém que traduzisse o que eu pedia. Minha irmã, fluente nessa língua, que poderia me ajudar, estava ocupada vendo esses panfletos de turismo, apresentados em três ou quatro idiomas. Não quis incomodá-la.

Quem sai do Brasil pela primeira vez, geralmente imagina que o espanhol é uma língua de fácil compreensão, mudando apenas a terminação do “ão” para o “on”. Mão, na minha cabeça se transformaria em mon, papelão seria papelon, caminhão, consequentemente, caminhon. E por aí vai.

Resolvi desistir, poderia muito bem esperar chegar a minha futura casa. Antes de guardar meus “bolivianos”, um moça que eu não tinha reparado, aparentando ter saído de um grande choro, apresentou-se ao balcão e falou para a garçonete algo que eu percebi que era sobre ou para mim.

 Como a vendedora trouxe exatamente o que eu tinha pedido, ficou fácil entender que aquela jovem, com aparência de hippie, falava o meu português.

Senti-me à vontade para lhe perguntar seu nome, enquanto degustava o passatempo, pouco me importando sobre os motivos de seu suposto pranto. Rebecha, esse era o nome dela. Natural da Argentina, da região de Córdoba, a mulher com quem dialogava era loira com cabelos encaracolados. Tinha olhos azuis, era moderadamente alta e vestia roupas despojadas, sem qualquer preocupação de se alinhar com os últimos lançamentos da moda.

Perguntou-me se eu falava inglês. Fraquejei na resposta, pois ainda acreditava que os anos dedicados a essa língua, por meio de livros e gramáticas, poderiam me livrar de um possível apuro. Depois de duas ou três perguntas, feitas rápidas e naturalmente por ela, desisti e disse: no, I don’t speak English.

Compreensiva e me passando a ideia de ser superior, voltou a me responder as perguntas que eu fazia sem parar. Não usou o português, preferiu um espanhol devagar e compassado, deixando-me ainda menor do que eu me sentia. Tive vontade de perguntá-la sobre as razões de não usar minha língua e o porquê do choro, mas não consegui encontrar coragem, poderia estar abusando da bondade e da sensibilidade dela.

Duas semanas depois, já tendo coragem de passear pela quadra do bairro onde nós morávamos, eu a encontrei, sentada em uma praça sobre um pano colorido e tendo ao redor outras pessoas que, pelo que pude perceber, pensavam e agiam como ela.  Acho que todos eram artesãos dessas pulseiras e brincos que garantem o jantar de quem vive pelas ruas.

A praça ficava na frente de uma igreja toda feita de tijolos que eu pensei tivessem sido moldados à mão. Era um templo alto, com um ar de antiguidade que lembrava as catedrais medievais europeias que eu via nos livros de História de Ensino Médio.

Convidou-me para fazer parte da aparente festa. Usavam coisas que, tirando a cerveja, não tive coragem de experimentar. Não sabiam que idioma era aquele que eles estavam falando. Na minha cabeça, se assemelhava a alguma língua do Leste Europeu, pois as terminações das palavras eram sempre próximas do “evisk”, “ovisk” “mov”.

Já sentindo os efeitos do vinho, não me contive como no primeiro encontro. Perguntei tudo o que eu queria. Soube que ela tinha pais brasileiros, que voltava da Romênia onde tinha ido sepultar seu grande amor, morto por razões que não quis revelar, mas que pela vida que levavam, suspeitei facilmente qual teria sido a causa.

Uma hora depois, saciado em minhas respostas, bebendo prazerosamente aquela cerveja forte, chegava um rapaz extremamente bonito para participar do evento. Dando prova de a todos conhecer, riu para um, apertou a mão de outro e beijou Rebecha.

Por algum motivo não gostei da cena. Mas calei-me depois que o vi dando a ela uns presentes e solicitando que me apresentassem a ele.

Seu nome era Isaac, esposo de Rebecha. O sepultamento de que me falava, era o de sua família deixada para traz, depois que se dispôs a viver daquela forma.

 Por isso não queria usar o português. Por isso se aproximou de mim. Queria esquecer os pais, mas sem perder as gotas de lembranças que podia ter, sempre que me via falando.

Fiquei mal! Usei a desculpa de ter passado dos meus limites e me despedi de todos. Fui para casa pensar no que tinha vivido.

Depois desse dia, nunca mais acreditei em amores herdados. Eles são capazes de nos fazer chorar, de se alimentarem de pequenas migalhas, mas jamais de nos fazer felizes.

Por FRANCISCO RODRIGUES PEDROSA    f-r-p@bol.com.br

 

 

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Cotidiano

Bandidos armados invadem loja, fazem o limpa e são presos na Via Verde

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Mais uma ação rápida dos Policiais Militares do 2°Batalhão impediu que uma empresária tivesse um prejuízo de mais de R$ 10 mil. Os assaltantes Giovane Lucas Sousa Santos, 20 anos, Davi da Silva Limeira, 18 anos, e os adolescentes J.W.O e M.M.S, ambos de 17 anos, foram presos após invadirem a loja Jaque Confecções, render a proprietária e roubar vários pertences. O roubo aconteceu no bairro Santa Inês,  Segundo Distrito de Rio Branco.

A polícia foi acionada via Ciosp para atender a uma ocorrência de roubo a loja de confecções. Quarto homens armados em um Fiat Uno, de cor branca, placa NAD-5363, pararam na frente do estabelecimento e três dos criminosos invadiram a loja, renderam a proprietária com uma arma apontada para a sua cabeça e fizeram um limpa, subtraindo vários tênis, sandálias e roupas. A ação dos criminosos durou aproximadamente 10 minutos, os bandidos colocaram os pertences da loja no carro, roubaram o relógio e o anel da vítima e em seguida fugiram do local.

Durante patrulhamento na Via Verde, próximo ao Balneário Águas Claras, uma guarnição da polícia se deparou com o carro, houve um acompanhamento e o veículo foi abordado. Durante a revista no carro foi encontrado em posse dos criminosos, dois revólveres calibre 22, uma Garucha, um simulacro, um anel, um relógio e os pertences da loja. Foi feito uma consulta no sistema e foi constatado que o veículo em que os assaltantes estavam havia sido roubado no dia 8 deste mês por volta das 5h da madrugada.

Diante dos fatos o quarteto foi detido e encaminhado a Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca) para os devidos procedimentos.

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Crônicas de um Francisco

É preciso sacudir a Rede

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Esqueçam as armas, os combates, as barricadas e os tambores! A guerra atual se ensaia e é travada nas redes sociais. No maior símbolo da expressão de um mundo sustentado na desigualdade e na informação, a internet, acumulam-se fatos e factoides.

As verdades são montadas, forjadas, climatizadas na frieza das artimanhas e nas tentativas tendenciosas de impor o seu quadro, a sua publicação. A verdade, aquela lá, distante e distanciada, perdida em algum lugar, se ausenta!
Nos sites de relacionamentos, formatam o pensamento, dividem as ideias, separaram as pessoas em duas classes: os da esquerda e os da direita.

Você não pode ficar fora desses dois lados. Nem que isso signifique que você não acredita em muitas coisas que essas duas frentes políticas vem mostrando e revelando. Mesmo que o que você quer é a reprovação e a condenação de todos os que mergulharam, sem a inocência infantil, na lagoa azul do crime contra o patrimônio público.

Ai começa a putaria! Abrem-se os bordeis! Não se sabe se é o cisne que pega o peixe ou se o peixe que vai pra morte.

As reportagens, as manchetes, as investigações, as decisões judiciais, enfim, tudo passa pelo filtro ideológico das afinidades políticas. Temos a impressão de que há um exército munido de brios e bravuras para detonar notícias e escândalos do outro.

O seu “doutor”, juiz, condenou o seu “bixim”. É de um partido de esquerda, foi golpe, manifestação das elites que querem morder a bunda dos revolucionários.

O mesmo seu “doutor” aceitou a denúncia contra o seu “zezim”. É da direita, é sacanagem, é injustiça, foi a esquerda que quando estava no poder conseguiu nutrir o judiciário de mentes vermelhas e avermelhadas.

A delação do “seu xikim” revela que milhões foram dados pro coelho da pascoa trazer ovos pra mim. Ah não, esse aí fazia parte do projeto político que tirou milhões da miséria e os colocou na pobreza. É mentira, difamação de uma elite quadrada que quer controlar ainda mais o Brasil.

A outra delação do seu “toim” forneceu documentos que comprometem um monte de políticos que pediram o impeachment da “lulu”. Ah não! Isso é um absurdo. Não podemos condenar ninguém antes da sentença. Além disso, as doações foram todas registradas e declaradas legais pelo pato que perdeu a pata.

E assim vamos! Cercados por cachoeiras de manchetes, tornados de acusações, campeonato de quem tirou o seu, mas “roubou” menos.

Nessa guerra de estrelas, nessa feroz batalha de quem brilha mais, há a certeza de que nenhum dos dois lados se sustenta, quando em fim raiar o dia.

Fale com Francisco Pedrosa no e-mail f-r-p@bol.com.br

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Afasta de mim este cálice

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Por Francisco Rodrigues Pedrosaf-r-p@bol.com.br

Ele sempre foi o mais vergonhoso na sala. Os professores que não gostavam do magistério o adoravam, não por suspeitar que ele não tivesse aprendido as matérias, mas porque nunca perturbava, nunca atrapalhava o martírio que era suportar quarenta desinteressados em uma sala de aula.

Jonas saía da escola como entrava: calado. Ao longo dos meses, até tentavam fazer disso alguns gracejos e escárnios, mas quando viam que ele não dava à mínima, paravam e aceitavam o colega afeto a poucas palavras.

O estudante não fazia isso de propósito, tinha problemas de se expressar, sentia pânico de usar o verbo e falar o que queria. Muitas vezes não entendia quase nada do assunto tratado, mas se redobrava em casa, sozinho, tentando aprender o que seu silêncio e timidez impediam de esclarecer.

Mas se tudo tem um preço, tudo também tem um fim. Decidiu acabar com aquilo de uma vez por toda. Era razoável pensar que, com seus dezesseis anos, não caía bem um rapaz portar-se como um túmulo. As coisas seriam diferentes, o mundo tinha ouvidos, precisavam lhe escutar.

Foi assim que, certo dia, vendo a professora se aproximar, imaginou ser o momento de romper com as barreiras que lhe afligiam por anos. A cada passo da docente, cada olhar em sua direção, cada corpo reto e uniforme ao seu, Jonas percebia que tinha chegado a hora. Seria agora ou nunca!

Na sua cabeça pensativa, no seu coração que palpitava apressado, em suas mãos que suavam, Jonas se lembrou de todas as vezes que ousou dizer algo em sala, queria enriquecer o assunto com algo que sabia, falar de suas opiniões sobre os temas, suas divergências e percepções, mas nunca conseguia se quer levantar o dedo, pedindo a voz aos mestres. Escurecia-se no seu silêncio mais mórbido.

Quando a professora restava alguns centímetros dele, o aluno respirou fundo e finalmente sussurrou alguma coisa que ela entendeu:

– Bom dia, Professora, a senhora tem ideia de quando a greve acaba?

– Não faço ideia Jonas. O Governo é irredutível, diz não haver dinheiro para conceder o mínimo que queremos e o mínimo que a educação precisa para melhorar. Enquanto isso, estamos aqui, sentindo na pele o quanto nosso dinheiro não vale mais quase nada. Você viu como as coisas aumentaram aqui nesse mercadinho? Gostaria muito que o secretário de educação e todos os outros bajuladores vivessem com o que estamos sendo obrigador a viver. Não tem dinheiro, porque gastou, gasta e gastará mal os recursos. Precisamos dar um basta nisso.

– Verdade, professora! Sempre é bom darmos basta em algo.

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Crônicas de um Francisco

Quem ganha com a greve dos professores?

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O dia tinha amanhecido quente! Os organizadores do movimento grevista combinaram na tarde passada mostrar do que o sindicato poderia ser capaz. Como forma de demostrar para o governador o repúdio a suas declarações de que não há dinheiro para conceder as misérias que melhorariam um pouco as misérias dos professores, a categoria iria bloquear as duas pontes do centro da cidade no horário mais tumultuado. O caos seria completo!

Os líderes do movimento sabiam que a peleja era desigual, lutavam contra um governo que reunia nas suas coxas muito da história do sindicalismo público do estado. Os professores sabiam mesmo que o partido que criou, sustentou e legitima ideologicamente o governo tinha inúmeros ex/falsos-sindicalistas. Sujeitos que no passado propuseram o debate, articularam as preposições de luta e criaram aquela linguagem enfadonha e renitente de um fantasioso companheirismo. Ardia mais o fogo, quando vinha do que se imaginava amigo.

Meio dia! O sol de matar formiga, escaldante e rude, lençol típico da Amazônia nessa época do ano, batia nos rostos secos e fustigados de tanto descaso. Pronúncias das mais altas insatisfações, combate do vil combate, pulsos aos céus em intermitentes socos, os professores marcharam em gritos de guerra, formulando inúmeros cânticos e parodias em protesto ao trato que a educação recebe no estado.

Quem realmente perde com a greve dos professores? Quem definitivamente ganha com ela? Perguntas difíceis, dilemas que a mão não consegue tocar: portfólio da irresponsabilidade que já passa dos quinhentos anos. Celebrem, homenageiem quem disse um dia que o Brasil não é serio.

Seu Chiquim ganhou com a greve! Idoso que avançava os setenta, sugado pelo inconformismo das agruras que a vida lhe ofereceu, picolezeiro por opção de se manter vivo ainda, naquele dia, bem dizer, naquela manhã, vendeu todos os seus produtos rapidamente.
Em meio a tantas alegrias, teve tempo de voltar a sorveteria e recarregar seu carrinho uma vez mais de tantos quantos pudessem comportar. Vendeu todos mais uma vez. O apurado no fim do dia foi gordo, iria escolher uma carne com ossos menores no açougue, trocaria a havaiana que namorava uns pregos há tempos e levaria um leite de rosas para a mulher.

Seu Chiquim perdeu com a greve! Feliz da vida com o dia que teve, não se ateve a perceber que avançou nos pratos da janta, descontrolou-se no carinho e tentou ir bem além do beijo seco e do abraço que sustentava aquela santa relação. Não existia mais! O coração não estava preparado para tanta afetividade. Quis muito! Quis amar e demonstrar sua simples felicidade, rememorar os anos em que fechava os bares, e mulher nenhuma sentia algo maior longe de seus braços. O Chicão tinha morrido, só ele não sabia!

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Bombando

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