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Rio Branco, Acre, 3 de junho de 2017

Está na hora de abrir a caixa-preta dos bilhões que viraram lama na BR 364

Nelson Liano Jr. 03/06/2017 08:58:52

Mais de dois bilhões de reais foram investidos na BR 364 entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul nos últimos anos. Ainda assim a estrada parece um ramal rural intransitável. O sonho de integração do Estado se transformou num pesadelo. De quem é a culpa? Esses dias o juiz Giordane Dourado postou o seguinte nas redes sociais: “Acre, BR 364. Os milhões(na verdade bilhões) que viraram lama. O maior exemplo de incompetência da história do Acre. É caso de punição exemplar para os culpados por esse absurdo. Não cabe a mim dizê-lo, mas ressalto: caso saiam impunes, será um salvo conduto para qualquer gestor no futuro desprezar os recursos públicos no Estado sem medo de consequências”. O fato é que em Cruzeiro do Sul até as pessoas mais humildes que utilizavam a BR para vir à Capital não se arriscam mais. Os ônibus que ainda têm a coragem de transitarem pela via só têm horário de partida porque a chegada ao destino é sempre incerta.

CPI lacrada
O deputado estadual Luiz Gonzaga (PSDB) tentou instaurar uma CPI na ALEAC para apurar a gastança na BR 364, mas foi derrotado pela base governista do PT. Os movimentos de bastidores amordaçaram as investigações parlamentares. Qual é o medo? Já dizia o velho filósofo chinês: “quem não deve não teme”.

Faltou projeto?
Se alguém quer fazer um foguete para ir à lua deve ter um projeto. No caso da BR 364 parece que as coisas foram feitas de maneira empírica. Os bilhões viraram lama e desapareceram dos cofres públicos. Se havia problemas de solo por que não investiram em pesquisa antes de construir a estrada?

Telhado de vidro
Um dos piores trechos da BR 364 está entre Feijó e Tarauacá, construído durante o governo de Jorge Viana (PT). Os poucos mais de 60 quilômetros estão intransitáveis. Uma viagem que normalmente demoraria 40 minutos leva mais de duas horas.

Telhado de vidro 2
Por incrível que pareça o agora senador Jorge Viana tem sido um dos que mais protesta contra a situação da BR 364. Tenta jogar a culpa no colo do DNIT que recém assumiu a estrada e da base parlamentar federal ligada à oposição.

Mudança de tática
Primeiro criticou várias vezes a atual situação da BR 364. Recentemente Jorge Viana postou na sua página no Facebook uma reunião com diretor do DNIT Valter Casimiro. “Voltei a cobrar o início imediato das obras de recuperação da BR 364 no Acre, sob pena de interdição desta rodovia que liga o nosso Estado,” escreveu o senador. Ele ainda pode sair como o “herói” da liberação dos recursos.

O apressado come cru
A precipitação do senador Gladson Cameli (PP) também é notável. Esteve em Cruzeiro do Sul e criou a ilusão que a estrada seria recuperada em pouco tempo. Isso não vai acontecer. Os problemas na BR 364 são muito sérios. A estrada, na verdade, precisa ser reconstruída. O PT tem se aproveitado dessa situação.

Erro de estratégia
Primeiro que assumir uma obra mal realizada é um risco. Deveriam ter investigado o mal fadado uso de bilhões na estrada para depois reiniciar a sua manutenção. A estrada fecharia? Com certeza, mas abriria um novo caminho para investimentos mais resolutivos.

Sumidouro de dinheiro
Sem um projeto técnico qualificado não haverá reconstrução da BR 364 nesse trecho no Acre. Vão acabar jogando mais alguns milhões fora. Continuará a ser criada a ilusão de uma estrada necessária, mas que não se realiza na prática.

Risco de desabastecimento
Essa situação da BR 364 coloca em risco o abastecimento de pelo menos seis municípios, Manoel Urbano, Feijó, Tarauacá, Cruzeiro do Sul, Rodrigues Alves e Mâncio Lima. Sem falar nos satélites, Porto Walter, Marechal Thaumaturgo, Jordão, Guajará (AM), Ipixúna (AM) e Envira (AM).

Certo pelo duvidoso
Nos tempos em que trabalhei na rádio no Juruá sempre aconselhava aos empresários manterem as suas balsas. Sabia da complexidade de construir uma estrada na Amazônia. A maioria vendeu suas balsas e passou a depender da BR 364 para abastecer os seus comércios. O risco de desabastecimento agora é enorme.

Vai ficar por isso mesmo
Não acredito que vá haver nenhum tipo de investigação mais profunda sobre os bilhões jogadas na lama da BR 364. O país está pegando fogo e o Acre representa só 0,3% do eleitorado nacional. Não é o foco do momento. E só haveria punição aos responsáveis pelo “desastre” das obras da estrada se instâncias federais atuassem na investigação.

Uma estrada eleitoral
O PT sempre usou muito bem a BR 364 como propaganda eleitoral. A oposição está tentando fazer a mesma coisa, mas sem a mesma competência. Deveriam primeiro mostrar a dinheirama jogada fora para depois apresentarem a solução.

A chave de “possíveis” crimes
Se alguém quiser investigar profundamente a BR 364 comece pelas doações de campanha das empresas que atuaram nas obras aos partidos políticos. Esse é o caminho para desfiar o novelo da corrupção, se houver, na construção da BR 364.

Quem paga é o povo
Não sei qual será o desdobramento desse caso da BR 364. Mas tenho certeza que os bilhões jogados fora na sua construção poderiam ter sido investidos em saúde pública, educação e segurança. Nenhuma dessas áreas no Acre anda bem das pernas. Em maio tivemos quase um homicídio por dia no Estado. O aeroporto continua sendo a melhor opção para quem tem problemas sérios de saúde no Acre. E a educação caiu muito de nível nos últimos anos. Não sei quem supostamente enriqueceu com esses bilhões da BR 364, mas acredito que não será difícil a Polícia Federal descobrir. O fato é que se essas necessárias investigações acontecerem muita gente que bate no peito se dizendo do bem, pode se preparar para tirar umas férias em alguma penitenciária do país.




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