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Rio Branco, Acre, 21 de maio de 2017

“Eu sou o espelho de muita gente que vive negando a verdade de ser gay”, diz Germano Marino

Nelson Liano Jr. 21/05/2017 06:44:04

Militante das causas homossexuais e babalorixá do candomblé, Germano Marino sempre foi um personagem polêmico no Acre. A sinceridade com que faz as suas postagens nas redes sociais costuma despertar temores. Aos 39 anos, estudou Ciências Sociais e Serviço Social, na Uninorte, mas não concluiu nenhum. Foi assessor parlamentar durante cinco anos da então senadora Marina Silva (Rede) e, quatro do deputado federal Sibá Machado (PT). Ocupou ainda alguns cargos comissionados nos Governos do PT, mas há três se desligou do partido para cuidar do seu terreiro de candomblé.

Germano é um sobrevivente num mundo cada vez mais conservador e intolerante com as minorias. As suas escolhas de vida o jogaram em campos de batalhas em visível desvantagem. Talvez por isso tentado incorporar os super-poderes da Mulher Maravilha na sua candidatura a deputado estadual, em 2014.

Ao contrário do que muitos imaginam, Germano garante que nunca foi sexualmente promíscuo. “Sempre tive o sonho de Alice de me casar”. Na mais recente Semana Santa participou do Lava Pés num terreiro de umbanda em Rio Branco promovido pelo Instituto Ecumênico. O Padre Massimo, aliado contra a discriminação religiosa, lavou seus pés, numa rara cena de comunhão e respeito à diversidade no Acre. “Muitos pastores evangélicos respeitam o candomblé, mas sofrem discriminação de outros pastores por trabalharem o ecumenismo,” revelou Germano.

Nessa entrevista exclusiva, que aconteceu na Semana Mundial de Combate à Homofobia, Germano Marino conta um pouco da sua trajetória. As relações que manteve com pessoas ligadas ao poder político e a sua visão das consequências do fundamentalismo relgioso que, segundo ele, contamina todos partidos políticos.

ac24horas – Como aconteceu a sua ligação com o candomblé? Uma religião de matizes africanas?

Germano Marino- A minha mãe era obesa, pesava 220 quilos e era alcoólatra. Ela estava num processo de separação do meu pai que era usuário de cocaína injetável. Os dois brigavam muito. A minha mãe começou buscar terreiros de umbanda para reatar a relação com o meu pai. As entidades espirituais mandavam ela fazer determinados trabalhos, mas como não podia ir, mandava eu por ser o seu filho mais velho. Eu já era kardecista, meu pai é de Uberaba (MG), terra do grande médium Chico Xavier, onde morei por um tempo. Passei a pedir às entidades para meu pai sair das drogas e minha mãe da bebida. Então conheci a médium Dona Tereza, ainda viva, que mora na Conquista. Através dela se apresentou a Pomba-Gira Maria Padilha que me pediu um “trabalho” para tirar minha mãe daquela situação extrema de ficar jogada no meio da rua. Numa sexta-feira, à meia-noite, fomos numa encruzilhada e fizemos o oferecimento. Em uma semana minha mãe parou de beber. Sou muito grato à Maria Padilha e à médium Dona Tereza, por minha mãe ter conseguido se curar do vício do álcool. Depois conheci vários casos de curas alcançados nos terreiros de umbanda, mas por preconceitos as pessoas não falam sobre isso.

ac24horas – Por falar em preconceito. A entidade Maria Padilha é um Exu feminino que, muitas vezes, é considerado por algumas religiões cristãs como uma manifestação do diabo.

GM – Isso reflete a ignorância. Para essas pessoas tudo que é relacionado ao espiritismo tem algo de satanismo. Por conta de não conhecerem, legitimam o preconceito. Mas as Pombas Giras e os Exus, como o Tranca Rua, que são tão identificados com o diabo, nada mais são que trabalhadores espirituais que estão mais próximos da nossa natureza, do nosso instinto animal. Somos instintivos ao ponto de cometermos as maiores barbáries e ficarmos nos perguntando por que a gente fez isso. Sendo que temos a capacidade de não cometermos essas loucuras. Sabemos que existe o bem e o mal. A Maria Padilha, se é um demônio, ela foi um anjo iluminado no processo que vivi com a minha mãe e os meus irmãos. Minha mãe se tornou médium e atendia as pessoas na casa dela fazendo trabalhos de cura recebendo orientações da Maria Padilha. A nossa família alcançou a paz. Há uma cultura milenar que reforça a existência do demônio para não reconhecer os seus próprios erros . Assim colocam a culpa das suas limitações, erros e fracassos no demônio. Fico muito chateado quando vejo esses programas evangélicos na TV. As pessoas vão lá e pegam uma orientação de cura material e espiritual, mas sempre precisam ter um inimigo impedindo a sua própria elevação. E esses inimigos são as nossas entidades da umbanda e do candomblé. Não temos no candomblé a questão da culpa e do pecado, mas da razão. Se eu matar sei que não estarei fazendo bem nem a mim e nem ao próximo. Os Orixás advém da natureza. Oxum não é uma entidade que mora nos rios, mas a própria água doce. Então quem poluir as águas estará destruindo a nossa energia cósmica que vem dos Orixás. O segredo do candomblé é retirar essa energia da natureza e passar para o corpo humano para fazer a transmutação, a cura. Nós do candomblé temos mais medo de estarmos nos caminhos errados do que qualquer outra pessoa das demais religiões.

ac24horas – Germano, Rio Branco é considerada uma das cidades mais evangélicas do Brasil. Você pratica uma religião que sofre evidente discriminação. Além disso, você é um homossexual assumido. Como é possível conviver com tantos preconceitos? Você se considera um sobrevivente?

GM – Eu posso dizer que todos os dias tenho que vencer esses preconceitos. Moro aqui na Defesa Civil, desde 1999. Aqui não tinha ruas, mas varadouros. Um policial para chegar aqui tinha que vir montado a cavalo. Fomos contemplados pela urbanização com ruas, água, eletricidade. Mas com o progresso chegou também o preconceito. Veio o desenvolvimento, os conjuntos habitacionais e as pessoas de outras religiões. Há 10 anos ninguém tacava pedras na minha casa de santo.

 

ac24horas – As pessoas tacam pedras aqui no terreiro?

GM – Quebram e xingam. As pessoas não passam na frente do terreiro sem se benzerem. Fazem passeatas, veem com carros de som dizendo: “se você quer a sua libertação, a sua cura, saia dessa macumba. Venha para o culto de tal igreja”. Isso acontece todas as semanas. E a gente tem a ética de não revidar. Entendemos isso como ignorância. Porque se a gente fosse revidar viveríamos em porta delegacia denunciando pastores de igrejas.

ac24horas – Já teve pastor de igreja que veio aqui tomar satisfação, ou tentar a sua conversão?

GM – Claro que sim. Eles vem orar aqui na frente, fazem cultos, sessão de descarrego. Já precisei conversar para não fazerem isso. Também tive que colocar pra correr porque eu não faço isso na porta da igreja de ninguém. É inadmissível . Não entendo como esses pastores se prestam a vir na porta de um terreiro de candomblé fazer um culto para exorcizar o demônio. Sendo que nós, os adeptos de candomblé, jamais criticamos as orientações religiosas que as pessoas estão recebendo, seja ela qual for. Aí os pastores dizem que não é preconceito, que temos que aceitar a palavra do Senhor. Mas será que esse Senhor quer que olhemos as pessoas com preconceito? Com individualismo e ignorância? Agredindo as pessoas? Quando a gente toca o tambor, as sessões aqui terminam sempre às 22hs. Eu não perturbo a paz de ninguém. Mas eles se acham no direito de vir na minha casa, à meia noite, para jogar óleo ungido. Eu prefiro conversar, pedir pra pararem de agir com ignorância. Já ouvi várias vezes a pregação do Sermão da Montanha inteiro. Mas tem horas que a gente perde a paciência e parte para uma via traumática.

ac24horas – Você já chegou às vias de fato, agressões físicas, com esses pastores?

GM – Não. Mas já tive o muro da minha Casa de Santo pichado, com a frase: “vamos matar os gays”, por causa da minha militância no movimento LGBT. Mas por que picharam a Casa de Santo? Eu moro ao lado. Por que tinha que ser logo na minha Casa de Santo? Porque é uma religião que sofre discriminação. Por eu ser de candomblé e homossexual. Não sou de nenhuma família tradicional acreana, não tenho nenhuma instituição governamental que injete recursos na minha Casa de Santo. Não sou agente público, não sou funcionário.

ac24horas – Você vive de quê então Germano?

GM – Eu vivo de iluminação, ar e alimentação (risos)

ac24horas – Sim, mas como você faz para comprar alimentação no supermercado, pagar a água, a energia?

GM – Eu criei meus cinco irmãos. Minha mãe faleceu com 47 anos depois de nove derrames. Quando ela morreu terminei de criar meus irmãos. Já há três anos que estou sem remuneração salarial. Então meus irmãos me sustentam pagam a luz, a água, a internet e me dão de comer.

ac24horas – Esse movimento que você faz na Casa de Santo rende alguma coisa?

GM – Eu não levo a minha religião com o mecanismo do dinheiro. Eu vivo para a religião e não sobrevivo da religião. Totalmente diferente de alguns outros cultos religiosos. Aqui tem uma taxa simbólica de manutenção de 25 reais por mês. Mas de 46 pessoas, só três que pagam. Eu vou expulsar os outros que não pagam? Claro que não. Tem gente que chega aqui com problemas de droga. Ai vai lutando para se libertar. Porque o santo não tem uma fórmula mágica pras pessoas saírem da dependência seja da droga, da bebida, da comida, ou de uma paixão não correspondida, que faz a pessoa querer se matar. A gente aceita as pessoas como elas são. Cada um chega com a sua natureza e a gente vai ensinando que tem que se modificar e, as pessoas vão se lapidando. Aqui não tem exclusão, mas inclusão. Costumam me perguntar por que no candomblé tem tantos gays, lésbicas e travestis? A árvore é Oxóssi e as suas folhas. Ele não escolhe quem deve usar o fruto daquela arvore. Não vai dizer que é só pra hétero ou homossexual, gay, bi ou pan. A natureza e o candomblé estão aí para servir a todos.

ac24horas – Por falar em sobrevivência eu sei que você durante muito tempo teve uma grande proximidade com os governos do PT. Parece que você anda afastado. O quê aconteceu? Não tem mais nenhum tipo de cargo de confiança seja no Governo ou na prefeitura?

GM – Pedi par sair do Governo há três anos para ser candidato a deputado estadual. Adotei a personagem caricata da Mulher Maravilha. Como Germano já tinha sido candidato a vereador de Rio Branco, em 2008. Mas preferi usar a Mulher Maravilha porque para disputar com esse pessoal que já tem uma estrutura não é fácil. Para ser conhecido nem que vendesse a minha casa daria para competir. Como Mulher Maravilha fiquei conhecido de Rio Branco ao Rio de Janeiro. Me projetou, mas não de uma forma muito positiva. Tudo que mexe no preconceito tem muito questionamento. A própria comunidade LGBT do Acre achava que aquilo estava denegrindo a imagem de outros homossexuais, queriam que eu saísse como gay normativo. Para não sofrerem muito preconceito fazem um personagem hétero, um gay mais alinhado, mais machinho, né. Isso é bem mais aceito. Elas dizem: “Ah eu gosto de você Germano porque você é um gay comportado, mas eu não gosto desse gay mais afeminado.” Então quando decidi sair de Mulher Maravilha, sabia que não ia ganhar para deputado estadual. A minha intenção não era o voto, mas romper barreiras. Mas sair candidato de Mulher Maravilha não foi um fator para me afastar dos governos do PT. Pedi meu afastamento do cargo comissionado da Secretaria de Saúde e depois disso não fui atrás para renomear. Quando a gente é candidato as pessoas acreditam que a gente tem super-poderes.

ac24horas – Sim, mas você se vestiu de mulher maravilha que tem super-poderes.

GM -(Risos)Mas não apareceu nenhum Super-Homem.

ac24horas – A gente vê que você tem um conhecimento espiritual. Passa uma seriedade em algumas postagens nas redes sociais relativas a sua religião. Não fica contraditório com a função de ser um babalorixá do candomblé assumir uma postura jocosa como você fez na eleição?

GM- Não só como Mulher Maravilha, mas também me visto de drag queem. As minhas postagens tem o pai de santo, a drag queen, a Mulher Maravilha. Também escrevo sobre determinados temas que ninguém gosta de abordar nas redes sociais.

ac24horas – Por exemplo?

GM – O Priquitim. Ninguém gosta desse nome, um bar que tem perto da minha casa. Ninguém gosta de dizer que vai lá. Mas tudo mundo chama de Priquitim. O Brasil é um capitania hereditária do conservadorismo, E isso tem feito as pessoas adoecerem. Não vamos confundir liberdade com libertinagem. Temos que ter liberdade de sermos quem somos sem sermos rotulados por conta disso. O que existe são rótulos. Só porque sou um líder religioso, até parece, que não posso ser uma drag queen. Nenhum líder religioso que tenha ética vai alienar ninguém. Segue quem quer e se identifica. Por isso faço questão de mostrar nas redes sociais quem eu sou para as pessoas não se enganarem. Sou de carne de osso e sentimentos. Ao mesmo tempo que busco a minha iluminação espiritual e oriento a iluminação das pessoas, eu sou o Germano de drag queen, de Mulher Maravilha, falando algumas coisas que consideram deplorável. As pessoas estão tão acostumadas a essa realidade precária das redes sociais que esquecem que precisam se aprofundar. Eu tenho conhecimento, mas não é exatamente na área espiritual, mas de vida e não me escondo.

ac24horas – Germano ainda falando das redes sociais você faz postagens dando a entender que determinados homens casados possam ter ficado com você. Como é isso? São homens que escondem o homossexualismo? Porque sendo ativo ou passivo é homossexual. Ser homossexual é ter relação com pessoas do mesmo sexo. Tem muito machão que você tem relação? Pessoas que a sociedade nem imagina?

GM – Tem muitos bissexuais. Entre gays, lésbicas e travestis o maior número é de bi, que se relacionam com ambos os sexos. Então os bissexuais não conseguem transitar numa linha continua que seja com pessoas só do mesmo sexo ou do outro sexo. É o maior público, mas dificilmente se assumem. Eles querem se invizibilizar. Nessas postagens eu cutuco na ferida por não se assumirem. Será que a sociedade está preparada para um pai dizer ao seu filho ou a sua mulher que é um bissexual? Não está. É culpa deles serem safados por não se assumirem? Não, ninguém está preparado pra sofrer tanta carga de preconceito. Quem sofre mais preconceitos são os gays afeminados e as travestis.

ac24horas – E os gays normativos?

GM – São os gays machos (risos). Falam assim: “eu sou gay, mas sou machista e tenho ações preconceituosas contra os gays.” Porque quando alguém quer bancar o macho sendo gay e recrimina os mais afeminados está agindo de machinho. Não vai afetar a sexualidade ser mais afeminado ou não. Mas os gays existem e são muitos. As pessoas não assumem isso. As minhas postagens despertam o imaginário das pessoas. Sou gay assumido desde 1999 e milito nessa causa. As pessoas, no imaginário delas, acham que sou do cenário da prostituição, frequento bacanais. E acham que sei quem é cada gay que mora no Acre. As pessoas me perguntam, Germano você sabe quantos gays existem em Tarauacá? No Brasil, a estimativa da população homossexual ainda é baseada no Relatório Kinsey, 10% de qualquer sociedade é de homossexuais. Mas é claro, já me relacionei com pessoas que estão em cargos importantes.

ac24horas – Tem algum político que esteja no mandato com o qual você teve relações?

GM – Na época que tive a relação não era, não ocupava nenhum cargo importante. Mas o que acho estranho é assumir bandeiras contra gays. Mas fazer o quê?

ac24horas – Então quer dizer que quando você teve essas relações com essa pessoa não era político?

GM – É claro. Todo mundo tem uma vida. Agora, a política faz as pessoas esquecerem do passado, esquecerem de amigos, esquecerem de amantes, esquecerem de relacionamentos. A política tem disso. Quem é que hoje no Acre vai assumir que é gay? Isso gera votos? Quem está preparado entre os nossos parlamentares para dizer eu sou gay? Vai ganhar a eleição? Não vai ganhar. Ninguém é doido de se assumir. Só o maluco do Germano que se expões de forma caricata que não está nem aí para esse cenário político. Mas eu sou o espelho de muita gente que vive negando a verdade. Claro que quando boto determinadas postagens algumas pessoas ficam se tremendo. Às vezes, estou fazendo apenas uma jogada e aquele que nem imagino é o primeiro a cair. Isso só para ver como a negação do espelho deixa a pessoa tão vulnerável.

 

ac24horas- A gente viu o deputado federal Alan Rick (PRB) tendo alguns embates pelas redes sociais com você. Por questão de ensino de gênero nas escolas e da união estável entre homossexuais. Posturas que não comtemplam as tribos LGBTs. Inclusive, vi um debate entre ele e o deputado federal Jean Willes (PSOL-RJ), na Globo News, sobre essas leis que contemplam a comunidade. Como você avalia esse comportamento do Alan em relação às comunidades gays?

GM – Primeiro, ele é deputado por que? Quem o elegeu? Foram os gays ou os evangélicos? Então o Alan tem que defender a base dele. A religião é um dos fatores, principalmente o fundamentalismo, que gessa todo tipo de avanço da cidadania LGBT no Brasil. Ele é um deputado federal que está no rota de coalizão dessa massa fundamentalista para coibir qualquer tipo de incidência de projetos de lei que possam nos dar direitos iguais a qualquer outra cidadão brasileiro, independente da sua condição humana, hétero ou homossexual. Ele está nesse processo, nessa onda. Mas não é só ele. Porque já estive sentado com o governador (faz uma pausa), não vou dizer pra ti qual deles, que já me disse claramente que é contra o casamento gay. Mas vi no momento, que ele me disse aquilo, que não era uma questão preconceito, mas de ignorância. Ele não entendia muito bem o projeto de união estável, nem o casamento civil. Muitos acham que os homossexuais lutam para casar na igreja. Na cabeça dele estávamos lutando para casar na igreja, forçar padre ou pastor a nos casar. Não é isso. O projeto que passou na semana passada na CCJ do Senado Federal é para legitimar, dentro do Código Civil, as uniões homo-afetivas. Conseguimos avançar graças a uma decisão favorável do STF e da Comissão Nacional de Justiça. Claro que o deputado Alan é retrógado por conta de não querer avançar e fazer um debate injusto da pluralidade e vive nesse processo fundamentalista religioso. Assim como tem também o deputado estadual Jonas Lima do PT. Existe uma bancada na ALEAC puxada por fundamentalistas. Imagina, vai um projeto para a ALEAC intitulando o dia 17 de maio como o Dia Estadual contra a Homofobia. Essa é a data quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou o homossexualismo da lista de doenças. Então é uma data histórica. Será que vai ser aprovado? Então não posso pegar o deputado Alan Rick e pregar numa cruz e dizer que só ele é o problema do retrocesso. Não posso ser incoerente. Existe uma homofobia institucionalizada. Todo esse legislativo e as nossas instituições estão contaminadas pelo fundamentalismo religioso. E isso impede as políticas públicas e os projetos de lei que possam amparar os homossexuais. É um estado crescente de fundamentalismo religioso, de conservadorismo e da discriminação. A homofobia está tanto no Executivo quanto no Legislativo. Estou há três anos fora de cargos comissionados e de governos porque é muito melhor estar fora fazendo o controle social. Fora a gente sabe quem é o inimigo. Dentro os inimigos estão mascarados.

ac24horas – Você continua filiado ao PT?

GM – Me desfiliei. Não por achar que seja um partido de ladrão e corrupto. O PT foi muito bom pra minha vida política. Mas me desfiliei por contas de pessoas. Sai para não brigar, sou um homem espiritualizado. Sai do PT, mas não vou me filiar a nenhuma sigla . Não sou candidato, até que Deus me prove ao contrário. Nesses anos de militância aprendi a fazer o controle social. Não preciso de um cargo eletivo para estar lutando pelos direitos dos homossexuais.

ac24horas – Você acha que o PT também foi contaminado pelo fundamentalismo, depois que chegou ao poder no Acre? Por grupos conservadores fortes?

GM – Todos os partidos foram e estão sendo contaminados. Tem o PSOL que assume uma bandeira mais progressista, mas de vez em quando escorrega para estar no cenário de poder. Todos os partidos que queiram estar no poder estão num crescente de conservadorismo e não só o PT.

ac24horas – Qual a consequência desse conservadorismo e fundamentalismo religioso infiltrado nos partidos para a sociedade num futuro próximo? E dessa intolerância crescente?

GM -Não precisa de futuro. Nós já estamos vivendo isso na atualidade. Quando a gente tem um Bolsonaro com milhões de seguidores pedindo para que ele seja candidato a presidente num cenário que pode ganhar as eleições, não precisamos esperar o futuro. Temos um presente com as pessoas com ideias nazistas e retrocedendo a sociedade, não só para homossexuais, mas para negros, mulheres e deficientes. Isso está adoecendo as pessoas, principalmente, pegando o ponto mais vulnerável que é a violência. Vou dar um exemplo. Em qualquer estado temos a proliferação de igrejas religiosas e isso não diminuiu a violência, pelo contrário, fez aumentar. Então do que isso está servindo? A religião deveria servir para mudar a vida das pessoas. Há cinco anos li um artigo do então subsecretário de segurança, Ermício Sena, sobre o incentivo que o Estado dava para as comunidades terapêuticas de cunho religioso para a cura dos dependentes químicos. Isso era muito importante. Eu me perguntei: aqui na minha rua só tem um terreiro de candomblé e conte quantas igrejas evangélicas tem. Agora, veja quantos usuários de drogas existem na minha vizinhança. Nesses 20 anos que moro aqui só vejo aumentar o número de igrejas, mas não diminuir o índice de violência. Por que o estado preza tanto em apoiar esse tipo de iniciativa e não faz política pública sem dar preferência a nenhum tipo de religião? Por que isso? Isso é um jogo de poder e voto. Não tem problema o Governo apoiar a Marcha para Jesus e a Parada Gay. Temos que fazer política para todos. Eu sou o governador do estado e não tenho discriminação contra os homossexuais, mas apoio uma bancada fundamentalista que todos os dias está tirando os direitos dos homossexuais. Eu não tenho preconceito, mas estou apoiando grupos fundamentalistas. Dois pesos e duas medidas? É muita insensatez. A minha saída do PT foi porque não posso estar comungando com esses dois pesos e duas medidas. Na minha vida eu sempre tive um lado, nunca fiquei em cima do muro. Não faço militância para estar em cima do muro. E paguei e pago caro até hoje. Tenho que respeitar a minha história e a minha bagagem. Não vou legitimar quem está em cima do muro.

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